IO Echo: Ministry Of Love

IO Echo

É, eu já imaginava. O disco de estreia do IO Echo, formado pela dupla Ioanna Gika e Leopold Ross, tem uma roupagem sonora completamente diferente do estilo adotado nas primeiras músicas lançadas. ”Ministry Of Love” não dispensa em nenhum momento suas guitarras. As batidas, entretanto, estão mais aprofundadas, trabalhadas de maneira cautelosa a fim de rebuscar ao extremo o passo em câmera lenta presente em quase todas as faixas.

A primeira canção Shanghai Girls apresenta o clima enevoado, mesmo que em seguida When The Lillies Die faça um desvio brusco na primeira impressão (e a última) dada ao álbum: seu ritmo frenético e quase desenfreado faz você querer remexer um pouco seus ossos. A faixa-título, porém, volta a encobrir o céu com um refrão melodramático, ainda que tocante.

Duas faixas, Stalemate e Addicted, já apresentadas em EPs anteriores, por desfilarem os arranjos da nova produção, perderam quase e totalmente suas características, respectivamente. Essa última, aliás, parece até uma nova música: o baixo foi substituído por teclados sombrios e alterações no tom como ela é cantada causam um certo incômodo para quem já tinha se acostumado com a versão mais animada e contagiante (o refrão é fácil de decorar e difícil de descolar dos ouvidos).

O shoegaze permeia obscuramente o repertório do debut, mas o dueto caminha em direção oposta. Apesar de terem experimentado um rock mais seco antes, Ioanna e Leopold preferiram uma levada mais hipnótica e bem mais experimental. E acreditem, eu me dei por satisfeito com o resultado deles.

Confira a seguir o vídeo oficial de Stalemate:

Yeah Yeah Yeahs: Mosquito

Yeah Yeah Yeahs: Mosquito

O trio Yeah Yeah Yeahs sempre muda a sua sonoridade a cada trabalho e isso não é novidade para ninguém. Não deveria ser, pelo menos. Ainda que os dois primeiros discos “Fever To Tell” (2003) e “Show Your Bones” (2006) sejam similares no estilo gritante de Karen O., a diferença é mais gritante ainda entre “It’s A Blitz” (2009) e o último lançamento “Mosquito”.

Um dos teasers já mostrava essa mudança, muito mais radical no visual loiro de Karen do que na própria música, diga-se de passagem. O primeiro single oficial Sacrilege surgiu com uma melodia leve, vocais mais afinados (salvo por alguns trechos mais exclamados) e a participação inesperada de um coral, deixando a música com um tom bem gospel do que o próprio nome da canção.

Sim, o álbum tem sua parte voltada para o rock, como em Mosquito, Area 52 e Buried Alive (e mesmo nessa última, a participação do rapper Dr. Octagon seja mais uma peculiaridade exótica do novo caminho adotado pela banda), porém a novidade está na maioria das outras faixas. A ausência parcial ou completa de bateria ou do barulho  das guitarras chega até a assustar, mas acredito que esse seja justamente o novo risco encarado pelo YYYs: arrastar o gênero musical atual para os sintetizadores (These Paths e Always são a prova maior), os quais já tinham sido aproveitados no trabalho anterior, e tentar conciliar território com algo próximo do shoegaze (Despair e Slave quase alcançam esse patamar, mas sem muito sucesso).

Meu favoritismo recai justamente pelas músicas que mais fazem você decolar para o espaço: Subway e Wedding Song. É claro que Sacrilege também impregnou feito chiclete embaixo de cadeiras, ainda mais com um vídeo sensacional desses:

Kate Nash: Girl Talk

Kate Nash

Kate Nash não tem mais 21 anos. A fofura do primeiro álbum “Made Of Bricks”, lá de 2007, amadureceu bastante, sendo que em “My Best Friend Is You” já podíamos perceber uma leve diferença no seu estilo musical.

Foi com a divulgação de Under-Estimate Girl que todos estranharam a mudança radical de Kate, tanto no som quanto no próprio visual. O primeiro single de “Girl Talk”, Fri-End, ainda enganava um pouco: a similaridade com singles anteriores, como Do Wah Doo e Foundations, é grande, ainda que os teclados estejam bem distantes agora.

O amadurecimento da garota, inclusive, não se dá só pela idade. O terceiro trabalho contou inteiramente com a contribuição dos fãs por meio de crowdfunding, uma prática cada vez mais normal entre os artistas de uns anos para cá (sempre vale lembrar da Amanda Palmer como exemplo excepcional). Ela agora também canta independência.

Kate Nash abraçou de vez as guitarras. As letras continuam com o lema do girl power (e isso pode ser uma característica duradoura dela), às vezes simples e com refrões repetitivos (Part Heart, Are You There Sweetheart? e OMYGOD! são os melhores exemplos), mas as melodias tiveram muito progresso, fazendo com que a veia pop se desprendesse um pouco das suas canções – como disse, ela também abraçou as produções independentes.

Mas nem por isso ela perde a presença vocal, arriscando até versos de rap (Rap For Rejection, uma provável influência do seu amigo Watsky) e versos escancarados (Sister, apesar da introdução ser de uma doçura equivocada) seguidos de muitas guitarras barulhentas e fortes baixos (All Talk é uma verdadeira explosão para os ouvidos, se estiver no último volume). Confira a seguir o vídeo de Death Proof:

Giant Drag: Waking Up Is Hard To Do

Giant Drag a.k.a. Annie Hardy

Annie Hardy ficou sete anos para lançar seu segundo álbum, “Waking Up Is Hard To Do”. O título já entrega a dificuldade que foi para o Giant Drag concluir a produção do novo trabalho. Aliás, foi possível acompanhar toda a trajetória graças às publicações feitas em seu site oficial – que, na verdade, tem toda a cara de um diário.

O que mais me atraiu no disco de estreia do Giant Drag, “Hearts & Unicorns”, é a sua explosão de guitarras e a voz quase desafinada e berrante de Annie, típicos dos anos 90 (sim, eu sempre considerei como nostalgia). São exatamente essas características que eu mais senti falta no novo trabalho. Quando Hardy lançou Stuff To Live For, faixa pertencente ao EP “Swan Song”, ainda em 2010, pensei que pudesse ser um indício de que ela fosse continuar com o mesmo estilo sonoro.

Demorou, como podem calcular, mais dois anos para que o novo disco saísse. O primeiro sinal veio à tona com a série de divulgações feitas no Bandcamp. A sequência monstrou uma certa inconstância quanto à nova modalidade adotada pela cantora: enquanto Firestorm, Seen The LightGarbage Heart mantiveram as notas pesadas das guitarras (ainda que moderadas), Cave Pig mostrou uma Annie Hardy serena até demais, tanto no ritmo como na maneira de cantar. Onde foram parar os gritos escaldantes?

Esqueça as distorções vocais, o novo Giant Drag está mais democrático nos arranjos, a começar pela faixa de abertura 90210, com um violão tão incompreendido quanto a própria  melodia. A estranheza não dissipa tão rápido assim com a próxima canção, We Like The Weather, ainda que Won’t Come lembre a alegria californiana dos Beach Boys (Sobriety Is A Sobering Experience também se encaixa aqui, cujo título combina com o novo comportamento contido de Annie). O bizarro atinge seu apogeu com Messif My Face, em clima de pura bossa-nova (sim, você leu isso!). De todas, acho que Meowch é a que ainda tem resquícios de seus grunhidos e acordes displicentes do primeiro álbum.

Lendo desse jeito, parece mesmo que eu não gostei nem um pouco do novo caminho trilhado por Annie Hardy. Admito que, no início, foi um choque para os meus ouvidos. Porém, tendo muito respeito pelo que ela fez e, acima de tudo, pelo que ela se esforçou para chegar até aqui, a nova produção merece toda a minha atenção e aceitação. Escute o álbum na íntegra:

Show do Paul Banks em São Paulo

Paul Banks (ou Julian Plenti)

Devo ter ficado um tanto extasiado – talvez abundância de expectativas seja melhor – com a vinda de Paul Banks para apresentar seu trabalho solo. Muitos devem ter ido ao show com a esperança de que ele fosse resgatar alguma música do Interpol como prêmio de consolo, mas todos tinham plena ciência de que isso não ia acontecer – o próprio Banks, aliás, deixou isso claro.

Não tenho preferência por um ou por outro – e já tinha afirmado isso antes quando Banks lançou o segundo álbum, fazendo algumas comparações com seu alter ego Julian Plenti -, mas a minha empolgação durante a apresentação dele foi praticamente a mesma quando das vezes que vi sua performance como Interpol.

Quanto ao setlist, Paul foi bem democrático, alternando as faixas dos dois trabalhos (exatamente nove de cada um). Por incrível que pareça, as músicas mais lentas, como Skyscraper (o que foi uma surpresa para mim, com a maior parte instrumental e um verso repetido poucas vezes), On The Esplanade e No Chance Survival, funcionaram muito bem entre as tantas mais sustentadas pela bateria e as guitarras, em sua maioria do segundo disco (a exceção fica para Goodbye Toronto, faixa da era Plenti que eu até então não conhecia).

Ainda que eu goste mais das instrumentais do primeiro disco, Lisbon também deu muito certo ao vivo, deixando o público – pelo menos quem estava mais à frente – aparentemente hipnotizado. Como esperado, Games For Days fechou a noite com chave de ouro e levantou todo mundo do chão, inclusive eu.

Confira a seguir a versão ao vivo de The Base (um dos vários momentos em que Banks se mantinha introspectivamente de olhos fechados):

I Am Kloot

I Am Kloot

Já faz muito tempo que conheço o trabalho do I Am Kloot. Trio nascido há mais de dez anos na cidade industrial (e também muito jovem, pelo que eu pude presenciar) de Manchester, seu som sempre agradou meus ouvidos. De todos os seis álbuns, não conseguiria dizer qual é o mais legal ou o mais especial, porém o mais recente “Let It All In”, lançado esse ano, ganhou seu devido destaque até agora.

A voz de John Bramwell certamente é o ponto crucial que firma a característica do grupo inglês: vagarosa, às vezes melancólica e com um ar bem bucólico, o que em nada tem a ver com o clima agitado dos universitários da cidade (não que o estilo musical de uma banda seja obrigada a transparecer as peculiaridades da terra natal).

Como falei, o sexto disco é o que mais tenho escutado, entretanto uma única música se sobressaiu completamente do singelo repertório de dez faixas: o primeiro single Hold Back The Night, em que os instrumentos de corda dão um tom completamente diferente das ouras canções. O vídeo, aliás, conta uma história bem interessante acerca de um acidente de carro. Sobre a letra, John explica que o futuro é a única coisa em que podemos depositar nossos medos e expectativas (“Turn on the lights / I cannot see where I’m running / Future keeps coming”).

Bastille

Dan Smith: Bastille

De vez em quando é bom falar um pouco sobre pop aqui no blog, já que sou tachado de chato e sempre acusado de não ser favorável à democracia musical – o que é a mais pura verdade.

Bastille é um quarteto britânico liderado por Dan Smith. Eles ainda não têm álbum de estreia (na verdade têm: “Bad Blood”, previsto para sair no próximo mês), com alguns singles e EPs espalhados desde 2010, ano de formação do grupo. Até hoje não ouvi nada deles, então não me pergunte se é bom ou ruim. Quem sabe eu escute alguns minutos quando o disco sair.

E onde está o pop? Está lá nas duas mixtapes que o Dan fez, “Other People’s Heartache”. Ele chamou uns amigos cantores e fez covers de clássicos dos anos 90, assim como alguns hits da década atual. Só ouvindo mesmo para entender a mistureba: The XX, Haddaway, Snap, Corona, Fugees, Clint Mansell (compositor da trilha sonora de “Réquiem Para Um Sonho”), Lana Del Rey, TLC, Fleetwood Mac, Rose Royce, Rihanna e… é o que eu consegui reconhecer – se quiser saber todas as versões originais, basta consultar as letras miúdas das capas (parte 1 e parte 2). Confira abaixo cada uma delas e divirta-se.

A primeira coletânea não dá para colocar aqui, então clique para ouvir.

Tosca: Odeon

Tosca

Seria irônico dizer que Tosca, dueto austríaco formado pelo DJ e produtor Richard Dorfmeister e o pianista Rupert Huber, divulgou seu último trabalho “Odeon” sem muito alarde, pois nem com o mínimo de barulho eles conseguiriam algum tipo de atenção da mídia.

Felizmente, não é algo negativo. Em seu sexto álbum, Tosca está ativo há mais de quinze anos, produzindo a mesma linha sonora desde então: música eletrônica, às vezes ambiente, fincada nos elementos do downtempo, se equilibrando de vez em quando no dub (mais presente nos remixes, diga-se de passagem).

Pela primeira vez, entretanto, Richad e Rupert convidam seus amigos para realmente cantarem em algumas das faixas, como é o caso do primeiro single Jay Jay, cujas letras mais longas demandam uma melodia bem mais elaborada – ainda que elas se mantenham com uma ou duas notas musicais. A diversidade vocal acompanha a Torre de Babel dos títulos das canções: voz suave em What If, voz atraente em Heatwave, vozeirão seco em In My Brain Prinz Eugen, voz importada da Bahia em Stuttgart e sussurros em Cavallo.

Para quem acompanha a carreira da dupla, é mais um ótimo álbum para guardar na prateleira de finesse musical. Confira a seguir o vídeo obscuro (literalmente escuro) do single de estreia.