Música

Markus Schulz e Amsterdã

Amsterdã, Países Baixos

Está rolando uma promoção da KLM para quem é a fim de trance. No dia 30 do próximo mês acontece o festival Electronic Family, em Amsterdã, com três atrações principais: Armin Van Buuren, Ferry Corsten e Markus Schulz. De todos, o último DJ foi o único que me interessou.

Conheço e gosto do Markus pelos artistas que ele já remixou. O catálogo vai do mais pop ao mais alternativo (confira a lista, é bem extensa), entre eles Everything But The Girl, Télépopmusik e Fatboy Slim. Como produtor, claro, ele segue à risca o estilo eletrônico e viajadão do trance, mas ainda fico com seus remixes – acho mais interessantes e até fogem um pouco do que ele costuma produzir.

Se trance não é o seu forte (também não é o meu), pelo menos tem a cidade para aproveitar. Amsterdã não me encantou em nada, para ser sincero, mas alguns lugares compensaram e muito minha passagem por lá: museu Van Gogh, onde eu passei boas duas horas apreciando a vasta coleção de obras do pintor, e o tour pela Heineken Experience (nada como uma cerveja para alegrar o final do dia). Também passei pela casa da Anne Frank, mas o clima pesa enquanto se anda pelos cômodos apertados: imaginar como era a vida rotineira e aflita da família dá um certo calafrio. Quanto ao arco-íris das tulipas, não pude contempla-las porque era no meio do inverno, mas mesmo assim encontrei alguns exemplares no mercado das flores.

O concurso da KLM acontece até o dia 10 de junho, então é melhor correr se quiser tirar a sorte grande. O vencedor ganha a passagem aérea para Amsterdã, o ingresso para o festival (além de conhecer pessoalmente os três DJs), hospedagem no hotel e até uma câmera, tudo isso com direito a um acompanhante.

Música

Saldo do Sónar São Paulo

Com exceção de uma razoável falta de organização do evento – duas horas de espera para retirar ingresso no primeiro dia, atraso das apresentações, pressão desnecessária da produção em cima das bandas, entre outros infortúnios -, o Sónar atendeu bem às minhas expectativas, mesmo querendo ver pouquíssimas atrações.

Kraftwerk, Sónar São Paulo 2012

Kraftwerk certamente foi a melhor atração do primeiro dia do festival. O som na pista principal estava ótimo (fiquei relativamente próximo ao palco e bem de frente para as caixas de som), apesar de ter perdido um pouco da experiência visual 3D proporcionada pelo grupo alemão – como podem ver na foto, meu ângulo não permitia aproveitar a projeção inteira. Duas horas exatas com o mesmo setlist, mas nem por isso desmerecido; era o que todos queriam ouvir.

Little Dragon, Sónar São Paulo 2012

Little Dragon era o que eu mais queria ver. Saí correndo do Kraftwerk para o auditório e, devidamente posicionado de frente para o palco, esperava ansiosamente a entrada do quarteto. Foi perceptível a produção correndo contra o tempo para deixar os instrumetnos prontos (o primeiro atraso que presenciei, dentre tantos outros que fiquei sabendo mais tarde).  Eis que começa a primeira música e sequer reconheci o estavam tocando. Fui mais para o fundo e, mesmo estando entre os assentos, a decepção não diminuiu: a acústica do lugar comprometeu inteiramente a magia da performance do grupo, tornando a apresentação em uma emanação desastrosa de ecos. Aparentemente eles não se abateram pelo problema com o som e interagiram muito com o público, e vice-versa. O setlist, pelo que pude reconhecer e lembrar, se concentrou nos dois últimos trabalhos, “Machine Dreams” e “Ritual Union”. Looking Glass, Ritual UnionPlease Turn e My Step representaram a parte mais empolgante, revezando com as faixas mais experimentais, como por exemplo Brush The Heat, Precious, Feather e Little Monster. Apesar dos problemas técnicos imperdoáveis, esse show já faz parte da minha lista de melhores do ano.

Four Tet, Sónar São Paulo 2012

Já no segundo dia, depois de um show entorpecido pela sequência hipnótica de guitarras do Mogwai, fui compensado por Kieran Hebden, mais conhecido como Four Tet. Prevendo a manada que desceria com o término do show do Justice (de quem nunca gostei, logo só desperdicei alguns minutos do meu tempo ocioso com eles), guardei meu lugar na grade, de onde pude testemunhar Kieran ajustando seus equipamentos. O set me surpreendeu bastante, revelando um Four Tet com batidas mais pulsantes e graves, deixando de lado seu estilo experimental mais conhecido. Já esperando que ele não fosse tocar nada do seu último disco, me deparo com Love Cry fechando sua uma hora de apresentação (e vendo o quanto Hebden ignorou a produção avisando dos cinco minutos restantes). Confira a seguir o set completo do Four Tet:

No geral, o festival não desapontou. Organização, espaço e seleção de bandas tiveram seus pontos negativos, mas ainda assim acho que houve muito mais pontos positivos: palcos cobertos e relativamente espaçosos (sendo que a distância entre eles era aceitável), vários caixas e bares à disposição, transporte até que organizado (a fila do táxi era grande, porém rápida). O atraso entre um artista e outro foi o que mais incomodou, atrapalhando a agenda de quem tinha cronometrado o tempo para correr de um palco para o outro. Mas todos nós abemos que a primeira vez sempre serve de lição para aperfeiçoar a estrutura das próximas edições. Assim esperamos.

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Sónar SP: Kraftwerk, Little Dragon e Four Tet

Assim que começou a venda dos ingressos no final do ano passado, não pensei duas vezes. Na época, o lineup do Sónar São Paulo não estava completo (juro que tinha esperanças de ter Matthew Herbert incluído, como em 2010 e tantas outras edições), mas já tinham duas atrações imperdíveis: Little Dragon e Four Tet. Logo mais tarde, veio a confirmação da Björk, cuja apresentação, na verdade, cairia mais como bônus do que favorito – não vi nenhum show dela até hoje, mas meu fanatismo se concentra apenas nos grandes hits e na obra-prima “Vespertine”. Infelizmente, os nódulos atacaram as cordas vocais da islandesa e o cancelamento foi inevitável.

Eis que o festival confirma, em questão de poucos dias depois, ninguém mais do que Kraftwerk, com um show visual em 3D. Lembro muito bem de tê-los visto no mesmo festival com o Radiohead: as músicas, ainda que simples, tiveram uma dimensão espantosa ao vivo. Mesmo com o setlist praticamente igual, o que importa mais agora são os efeitos visuais. Prova viva de que eles ainda estão com tudo é o show realizado no MoMA, em Nova York (só pelos aplausos, dá para sentir a vibração do público):

Quanto ao Four Tet, minha expectativa gira em torno de seu último disco “There Is Love In You”, por mais que algumas faixas eu não consiga imaginar ao vivo (talvez porque não funcionem bem na pista), porém não resta dúvidas de que ele pode se reinventar da maneira como quiser. Vale a pena visitar o perfil dele no SoundCloud, que inclui faixas antigas, mixes e remixes mais recentes (sem contar que ele acabou de divulgar duas inéditas essa semana). Little Dragon é o meu favorito e, entre todos, é o que mais me empolga: pela pequena discografia do grupo, é muito fácil se preparar para o show deles. Assista a seguir o vídeo oficial de Crystalfilm, extraído do último trabalho “Ritual Union” (os espantalhos até que assustam um pouco):

Quem não puder – ou simplesmente não quiser – comparecer ao festival, será possível assistir várias atrações através do canal exclusivo do Sónar no YouTube.

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Garbage: Not Your Kind Of People

Garbage: Not Your Kind Of People

Sou fã convicto de Garbage. Acompanho a saga da banda desde o primeiro álbum e, consequentemente,  as formações anteriores de Shirley Manson, como Goodbye Mr. Mackenzie e Angelfish (além de suas tentativas frustradas com a carreira solo enquanto participava do seriado Terminator: The Sarah Connor Chronicles).

As expectativas, claro, são exatamente as mesmas de quando eles lançaram “Bleed Like Me”, disco que se sobressaiu muito bem entre tantos boatos de que o quarteto realmente tivesse cessado suas atividades. O som, inclusive, não desapontou nem um pouco, seguindo quase os mesmos passos do debut: rock sujo e sem palavras comedidas (ao contrário de “Beautifulgarbage”, mais meloso e eletrônico). Quando eles lançaram a coletânea de singles, colocando um ponto final no acordo com a gravadora, fiquei receoso com o último single Tell Me Where It Hurts, talvez um resquício do trabalho solo da Shirley; definitivamente aquele não era o som que eu queria ouvir do Garbage.

Após sete anos, os teasers começam a pipocar na internet, ansiedade crescendo constantemente. Agora são independentes, mas ainda carregam o grande nome Butch Vig na produção do novo trabalho – ainda que a qualidade de um álbum não dependa somente do produtor e sim da banda. Meu primeiro contato com “Not Your Kind Of People” foi completamente decepcionante. Que fique claro, ser fã incondicional não é simplesmente aceitar uma música, por pior que ela seja, só porque você gosta cegamente da banda. Minha crítica se apoia no histórico da carreira deles, de como fui conquistado a cada disco lançado – com exceção desse último.

O primeiro single Blood For Poppies me ganhou de primeira (e o vídeo aí em cima também): uma leve mistura dos versos rápidos de Androgyny com o refrão pegajoso de Why Do You Love Me, uma fórmula ótima para se tornar um hit pop de rádio – se eu ainda ouvisse rádio, claro. Em seguida, Garbage solta Battle In Me, uma pancadaria nas guitarras para testar a potência de qualquer caixa de som. Não tinha como não se animar com duas faixas tão boas na sequência. Mas a felicidade durou pouco: Automatic Systematic Habit abre o repertório completamente destoado do que eu imaginava, com efeitos descabidos metalizando a voz de Shirley – isso não pode ser Garbage. Big Bright World simpatiza com um beat acelerado, mas ainda falta muita acidez. A satisfação é preenchida com Control, uma avalanche de guitarras que explode de repente junto com as letras obscuras (as quais, na verdade, revelam descontrole total).

Tanta empolgação escorre por água abaixo: a música que dá título ao álbum ganha troféu de pior faixa da lista: uma melodia enjoativa a ponto de vomitar. Já Felt ameniza com uma entonação sussurrada, poluída com quase a mesma intensidade de guitarras das faixas mais agitadas. I Hate Love traz de volta os elementos eletrônicos que nos entreteve em “Version 2.0″. Sugar é a baladinha, tão açucarada quanto o título, caminhando no mesmo estilo de Cup Of Coffee. Man On The Wire volta a tremer os tímpanos, colocando força total na bateria e no refrão (impossível não lembrar de Badass, quando ela começa a dialogar durante a música). Já é tradição que cada disco termine com uma canção mais suave, que fuja da turbulência dos instrumentos mais pesados. Não seria diferente com Beloved Freak, cujo teclado ecoa melancolicamente até o final (percebo aqui um pouco de semelhança com So Like A Rose).

Se eu fizer o balanço geral, o disco é bom e ponto. Infelizmente, não há nada de excepcional para se destacar. O retorno da banda certamente é uma alegria para nós, fãs ansiosos e impacientes. Poderiam ter regressado melhor? Sim, não ou quem sabe, eu ainda continuo sendo um acompanhante fiel à história do Garbage. Confira a seguir o ensaio de Battle In Me:

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Norah Jones: Little Broken Hearts

Norah Jones

Não sigo de perto a carreira da Norah Jones. O pouco que conheço dela é aquela fase bem tranquila, encostada no jazz típico de Madeleine Peyroux – o que não é ruim, pelo contrário. Aí, de uns anos para cá, Norah começou a se aventurar em outros mares: primeiro se divertiu com um rock legal e largado em “El Madmo” (2008), depois se atirou no country do Little Willies, em janeiro desse ano. E olha que nem mencionei a coletânea de participações especiais que ela mesma lançou há dois anos, cuja excentricidade vai de Belle & Sebastian a Q-Tip.

Depois de tanto trabalhar com os outros, era hora de fazer alguma coisa só para ela. Norah Jones finalmente se juntou ao Danger Mouse (parceiro do Cee Lo Green no Gnarls Barkley), que já produziu muitos discos legais de artistas mais legais ainda – um dos últimos, por exemplo, é do Electric Guest, como ele mesmo denuncia na primeira página do seu site. “Little Broken Hearts” é uma delícia de álbum, metade blues, metade folk e encapado com um soft rock. Até o visual da garota mudou – é só reparar na foto acima, mais sexy e charmosa, sem aquele jeito inocente com cabelo amarrado para trás. Confira o vídeo oficial do primeiro single Happy Pills, uma aviso para o moço, seja quem ele for, sair do pé dela o quanto antes.

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Marlango: Un Día Extraordinario

Marlango, Un Día Extraordinario

Como não falar de novo do Marlango? Minha paixão começou com “The Electrical Morning”; logo depois a paixão se transformou em puro amor com “Life In The Treehouse”, o qual eu pequei por não ter resenhado, por menor que fosse a homenagem. Agora, como prova de que o sentimento pode durar uma eternidade – mesmo que poeticamente falando -, o trio espanhol lança um disco gravado todo em castelhano. Tenho resistência à línguas estrangeiras que não o inglês (Odio París serve de referência para essas raras exceções), contudo Marlango conseguiu me cativar ainda mais com essa modesta ousadia. “Un Día Extraordinario” tem sua particularidade não só pela língua, mas como esse fator influencia diretamente na letra e na melodia de todas as dez faixas.

O romantismo continua ali bem sutil, aquele orvalho que enfeita a grama logo de manhã. Os instrumentos, assim como os arranjos, também permanecem tão serenos quanto os do álbum anterior. Cada disco tem sua música marcante, e nesse novo trabalho não poderia ser diferente: Gira me transmite paz de espírito e me faz navegar inconscientemente por devaneios intermináveis (traduzindo toda essa ladainha, deixo no repeat até esgotar minha paciência).

Nem por isso deixo passar as outras canções em vão. Dame La Razón inaugura o repertório com notas abafadas de violão, logo adornadas pela charmosa voz de Leonor Watling (agora muito mais charmosa cantando em espanhol). Bocas Prestadas e Todo Es Tan Importante lembram bastante os primeiros trabalhos de Marlango, como se elas tivessem sido traduzidas especialmente para isso: muito piano, alguns retoques de saxofone e percussão saliente para acentuar a delicadeza delas. Eis, então, que nos deparamos com Si Yo Fuera Otra e Exquisita, talvez as duas únicas que deslizam sobre as típicas danças espanholas. Uma ponta de drama exagerado faz presença em Ir e Un Día Sin Ti, outro elemento que se aproxima demais das características sonoras do país deles. Confira a seguir o vídeo oficial de Dame La Razón:

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Rapidinhas da semana #refresh 5

#refresh 5 (02.09.2008)

O refresh será tão rápido quanto o post original.

Ctrl+Alt+Sleep: a dupla da Carolina do Norte lançou um segundo disco, “Earth Lens”, em 2009. Eu não fiquei sabendo, logo não ouvi ainda (quem sabe rende um post, caso valha a pena).

Noa Babayof: a cantora israelense não lançou nada desde então. Para saber de novidades, será preciso um tradutor instantâneo para ler a página dela no Facebook.

Math And Physics Club: lançaram um segundo disco em 2010, “I Shouldn’t Look As Good As I Do”, o qual também sequer fiquei sabendo. Pelas capas de discos na página no Facebook, suspeito que eles tenham seguido a mesma premissa de copiar musicalmente Belle & Sebastian (não que isso seja um ponto negativo, mas certamente não terá post sobre eles).

Bowerbirds: continuo confundindo com The Rosebuds, cujo som não tem absolutamente nada a ver (e eu acho até um pouco mais legal). A banda, também da Carolina do Norte, lançou mais dois álbuns: “Upper Air”, de 2009, e “The Clearing”, desse ano. É puro folk, mas não fui mais atrás deles – o que dificilmente resultará em algum post por aqui.

Música

CALLmeKAT: Where The River Turns Black

CALLmeKAT

Nem acreditei quando me dei conta: faz quatro anos que eu falei da CALLmeKAT (isso mesmo, ainda continua tudo junto); parece que foi ontem ou, pelo menos, só uns dois anos atrás. Em 2010, seu primeiro álbum “Fall Down” teve uma repaginada total, da mixagem ao próprio título, agora “When Owls Are Out” (sugiro ouvir o anterior antes de abrir o link e fazer suas próprias comparações), cujas diferenças são bem sutis. Eu mesmo precisei colocar meus inseparáveis fones de ouvidos para reparar nas nuances melódicas, os barulhos experimentais e algumas pausas vocais.

Eis que Katrine Ottosen retorna esse ano mais bonita e maquiada, porém com o mesmo estilo sonoro. Seus efeitos especiais não convencionais de laptop se mantiveram conectados em seu novo trabalho “Where The River Turns Black”, ao lado do mesmo teclado e, dessa vez, de verdadeiros instrumentos: bateria responsável pelo mesmo produtor da nova versão do debut, Joe Magistro, a baixista Sara Lee do Gang of Four (e quem já teve passagem pelo B-52′s), além de participações especiais de uma das meninas do Au Revoir Simone, Erika Spring, e Helgi Jonsson do Sigur Rós.

O que eu mais gostei, apesar de tanto tempo ausente, é como Katrine soube se posicionar no cenário musical sem se desligar de sua origem. Em outras palavras, a produção ficou mais encorpada, ela chamou pessoas conhecidas (conhecidas aqui tem um significado mais modesto, entendam) para dar peso ao lançamento de seu trabalho mundo afora. Contudo, sua identidade, ao menos para quem a conhecia desde o início da carreira,  ficou intacta. Não vou dizer que o resultado ficou excepcional ou memorável, mas dentro do que ela compunha, posso dar nota dez para Ottosen. Confira a seguir o vídeo do primeiro single extraído desse último álbum, Tiger Head:

Livro

Imperial Bedrooms

Imperial Bedrooms, Bret Easton EllisNunca tinha lido nada de Bret Easton Ellis, nem mesmo “American Psycho”, cuja adaptação para o cinema, ouvi dizer, ficou bem melhor. Como sempre, meu interesse por um autor fica à espreita do que vejo em destaque nas prateleiras das livrarias. Seu último romance, “Imperial Bedrooms”, foi o motivo inicial, porém logo descobri pela sinopse que teria de ler “Less Than Zero” antes,  primeiro livro do autor escrito há vinte e cinco anos.

Apesar de ser uma sequência, é completamente desnecessário ler a obra de estreia para entender as personagens no romance mais recente. Less Than Zero é uma história inútil com pessoas vazias de expressão e ação, tanto que é possível resumir-la em pouco mais de duas linhas: jovens de dezoito anos ricos que fazem festas em suas mansões, bebem, cheiram e fazem sexo ao som de muitas bandas dos anos 1980.

Com menos páginas do que seu antecessor, mas sem ter uma narrativa de uma criança de dez anos, Imperial Bedrooms mostra seu protagonista, Clay, não muito longe do que era quase trinta anos atrás. Agora roteirista e morando em Nova York, Clay retorna para Los Angeles para negociar atores de seu novo filme. Voltar à sua cidade natal é recordar amargamente da sua juventude superficial e perceber, depois de tanto tempo, que ela continua entediante e movida à falsas alegrias, todas compradas com muito dinheiro. Os amigos antigos, entre eles a ex-namorada Blair, agora casada com Trent, o traficante Rip e Julian, que na época iniciou uma breve carreira de garoto de programa para quitar uma dívida, ressurgem mais apáticos e misteriosos. Todos eles se conectam indiretamente devido à presença de Rain, mulher com quem Clay começa a se envolver; sem saber, ele é infiltrado em um conflito perigoso de interesses.

Mistério, aliás, é o elemento com que Bret tenta trabalhar para tentar reverter a inércia de Less Than Zero: mensagens anônimas de celular, apartamento invadido, sensação de estar sendo perseguido – tem até um assassinato nos bastidores de Hollywood. Entretanto, a indiferença com que Clay trata tudo e todos deixa o leitor quase beirando a irritação. Devo admitir que, pelo menos agora, há realmente um enredo, há o que contar além de indivíduos se entupindo de álcool e entorpecentes – drogas ainda fazem parte da trama, mas felizmente entram como coadjuvantes. Ao terminar o livro, fiquei me perguntando por que o autor quis fazer uma continuação rasa de uma história incompetente e, ao mesmo tempo, tentar emplaca-la com o mesmo sucesso de Psicopata Americano. Claro que ele não obteve êxito.

Música

Show do Jay-Jay Johanson em SP

Jay-Jay Johanson em SP

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Shows como o do cantor sueco Jay-Jay Johanson são raridade em nosso país. Tal preciosidade, ainda bem, chegou  até mim através de comunidades online – a imprensa mesmo não fez questão de divulgar muito, mesmo porque o apelo não é lá tão justificável.

Minha expectativa realmente não era grande, visto que a apresentação foi compartilhada pela dupla Ljudbilden & Piloten (um som de cinquenta minutos surpreendemente hipnótico, construído lentamente com camadas sobrepostas de violão, vidro com água e iPad). Doze anos sem vir ao Brasil – sua primeira aparição foi no extinto Free Jazz Festival -, não imaginei que o repertório fosse tão próximo da perfeição, com duração de uma hora e meia. Com oito discos embutidos em sua carreira, fica até difícil pensar em quais músicas você mais quer ouvir, mesmo que entre as favoritas sejam as mais conhecidas, mas Jay-Jay pareceu atender esse pedido inconscientemente ao pequeno público de pouco mais de cem pessoas (ainda que duas pessoas tenham gritado por duas músicas).

Sabendo que suas músicas se sustentam nas batidas eletrônicas do trip-hop, a presença de um piano e um teclado davam indícios de que versões acústicas poderiam ser cultivadas em qualquer canção. Foi o caso de On The Radio, single que ganhou uma cara totalmente diferente – e ótima – com o piano, executada pelo talentoso Erik Jansson, deixando muito mais em evidência a voz de Johanson. Outros instrumentos que fazem parte da composição original de algumas faixas ficaram por conta de execuções automáticas, como em Driftwood, além, claro, das próprias batidas eletrônicas, porém não incomodaram ninguém – acho que, no fundo, queríamos que quase todas fossem acústicas.

Tive a impressão de inicial de que Jay-Jay concentrou a maioria do setlist nos últimos três álbuns, porém percebi que o equilíbrio foi muito justo entre todos os discos. Contudo, músicas como Skeletal, She’s Mine But I’m Not Hers, Tomorrow e Only For You fizeram meu queixo cair de espanto. A interação do cantor, entretanto, se resumiu aos “thank yous” e o breve desejo de não ter de aguardar tanto tempo para voltar ao Brasil, dando muito mais atenção ao seu copo de uísque e a garrafinha de água para aquecer a garganta. Ainda é cedo dizer, mesmo porque só quatro meses se transcorreram até agora, mas para mim já é o melhor show do ano – e certamente um dos melhores da minha vida.

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