Até joguei no Twitter se alguém queria minha companhia para assistir ao filme, mas ninguém se pronunciou. Também pudera, com um fim de sábado chuvoso e friorento como esse, só eu mesmo para inventar de sair de casa e ir ao cinema (entenda, estou sozinho esse final de semana, preciso preencher minha temporária solidão).
Adorei o filme, meu segundo favorito de 2008 (o meu primeiro predileto é “Apenas Uma Vez”). Não vou me estender muito sobre o que acontece no filme, pois Lu Monte soube muito bem fazer isso em seu excelente artigo. Aqui ficam minhas impressões – bem particulares, por sinal – sobre as dificuldades enfrentadas pelo protagonista, Jean-Dominique Bauby, e as reações que os outros personagens têm ao seu redor.
A aflição toma conta de você no começo do filme, desde a dificuldade de reconhecer o lugar onde ele se encontra, o motivo pelo qual está lá. Essa aflição só aumenta quando você é colocado no lugar dele, exatamente da maneira como ele olha ao redor – até onde a visão dele alcança – e redige seus pensamentos. Imagine que você não pode falar e, no primeiro instante, você acha que está falando, mas logo depois percebe – pela resposta dos outros, não pelo corpo, já que ele está paralisado – que não está. O desespero é o próximo sentimento a tomar posse do filme: Jean-Do só pode “falar” pela pálpebra do olho esquerdo, o único órgão ativo (não vou contar o que aconteceu com o olho direito, é pedir para parar de ler meu post agora); um piscar de olho significa sim, dois significam não.
Ele é pai de três filhos, já no segundo casamento, tem seu pai doente e leva uma vida agitada trabalhando na revista Elle. Mais uma vez, coloque-se no lugar dele: você leva sua vida normal e, do nada, você acorda na cama de um hospital e recebe a notícia de que tem uma doença raríssima. Sim, você nunca se coloca no lugar dos outros, apenas sente compaixão ou tem piedade de alguém que está nessas condições. Pois esse filme te obriga a sentir na pele o que ele passou. E é isso o que mais impressionou no filme.
Ele me pareceu se conformar com o que o arremeteu e a atual condição em que se encontra. Ele até faz suas brincadeiras (consigo mesmo, já que não consegue falar) em situações que são de chorar – o que me fez refletir o seguinte: será que eu conseguiria ter a mesma força de vontade? Há cenas tão simples que retratam perfeitamente essa força de vontade, coisas mínimas que, no estado dele, fazem uma grande diferença: ter paciência com a fonoaudióloga ao ditar todas as letras até que ele pisque, indicando qual é a certa, para formar a frase inteira; aguentar à noite o zunido insuportável do canal fora do ar; se conformar com as ações indesejáveis das pessoas, tais como desligar a TV justo quando está assistindo o jogo de futebol.
A idéia da morte vai e volta durante o filme, mas não é o tema principal do filme. Jean-Do tem vontade de viver, sonha algum dia voltar a ser uma pessoa normal, poder falar, se mexer e respirar como qualquer outro indivíduo. Também tem uma cena que exemplifica bem a dúvida de querer continuar lutando ou desistir de tudo: Jean-Do, em resposta à pergunta da fono de como ele está se sentindo, fala “eu quero morrer”. Ela simplesmente não se conforma, se irrita e, como se não bastasse tal falta de respeito com seu paciente, diz que ele deveria pensar nas pessoas que se importam com ele (inclusive ela, que também começou a ter afeição por ele). Com que direito ela tem de falar que ele não pode pensar em morrer, naquele estado deplorável e vegetal que ele se encontra? A indignação tomou conta de mim. Talvez seja radical ao pensar assim, mas como o filme coloca você no lugar dele, eu com certeza teria pensado em morrer várias vezes ao dia. Mesmo a morte sendo um pano de fundo para a história, o medo de morrer é que assombra o personagem do começo ao fim, cuja imagem utilizada como metáfora foi perfeitamente explorada: ele dentro de uma roupa de mergulhador (cujo nome é escafandro), abandonado no fundo mar, imóvel e preso somente pelo cabo que vem da superfície. É angustiante rever essa cena repetidas vezes.
Metáfora, aliás, é o ingrediente que enfeita o roteiro, a começar pelo título do filme. É um enfeite tão belo quanto as paisagens mostradas: praias desérticas, penhascos cujo horizonte se perde nas montanhas esverdeadas. Talvez seja isso que o diretor do filme aproveitou para mostrar – ou para amenizar – que a vida pode ser vivida sem complicações e com muita, mas muita, força de vontade, aconteça o que acontecer.
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One comment
Textos sobre filmes sempre são diferentes uns dos outros – depois que vejo o filme e faço meu texto, gosto de andar por aí lendo as opiniõs de outros blogueiro. Sempre surgem novas perspectivas.
Eu sei que eu não teria a força de vontade de Jean-Do. Teria desistido de viver, sem dúvida, e torceria pela chegada da morte. É justamente a determinação dele que impressiona tanto.
Ainda bem que você não falou sobre o olho direito!
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