Revolutionary Road

Às vezes me dá vontade de ler o livro que inspirou tal filme. Foi o caso, por exemplo, de “Foi Apenas Um Sonho”, película baseada na obra de Richard Yates. “Revolutionary Road” foi muito bem adaptado paras as telas de cinema, o que se torna um desafio para eu redigir essa resenha. Creio que a maior diferença – e a melhor – entre um livro e um filme são os detalhes que não podem (pelo menos integralmente) ser traduzidos em ações: os pensamentos dos personagens. Seus ideais, seus sonhos e suas frustrações são belamente alinhados nesse drama que exaspera sentimentos adversos e conflitos do começo ao fim.

Revolutionary RoadFicava na dúvida de que lado eu ficava: ao lado de April Wheeler, jovem sonhadora em ser uma atriz reconhecida, apesar de participar de um elenco de atores amadores e frustrados, e que transmite a maior parte da história insatisfação com a vida de dona-de-casa e mãe de dois filhos; ao lado de Frank Wheeler, rapaz cuja vida profissional se resume a um dia-a-dia monótono (nem no livro você consegue visualizar realmente qual é a função dele, a não ser que é um departamento de vendas recheado de várias cabines envidraçadas com um ditafone ao lado).

No começo pensei como April era petulante e fria com o marido; não sabia enxergar o mundo à sua volta e como ele se esforçava para dar toda a atenção do mundo para ela. Entretanto, a vida de mãe pareceu ter chegado ao limite com seus dois filhos pequenos, sem perspectiva de crescer no que for – ser mãe provavelmente não era o objetivo dela. Seu marido só se preocupa em abrir o jornal e ascender um cigarro quando chega em casa, além de recepcionar a esposa com um beijo de boa noite enquanto espera o jantar ficar pronto.

Frank não se conforma com – mais do que quando não entende – o comportamento de sua esposa. Sua carreira de atriz não é nada promissora – ambos têm plena ciência disso -, mas isso não é motivo para ela ficar resistente a tudo e a todos. Talvez sua infância difícil tenha amargurado um pouco seu coração; talvez isso tenha sido parte da idéia dela em querer abortar o primeiro filho. Como ela pôde pensar em tal monstruosidade? Foi uma semente dele, mais uma prova de sua masculinidade e também de constituir (e preservar, claro) uma família. Seu medo de correr qualquer risco o faz um homem covarde e completamente acomodado em suas funções rotineiras: trabalho, casa e visita de casais vizinhos (dois somente, por sinal, os Campbells e os Givings, cujas vidas e passados são brevemente apresentados ao leitor).

A grande e provável guinada da vida do casal Wheeler se dá com o súbito anúncio dos planos de April em viajar para a Europa. O preconceito e o individualismo superam essa parte da história: April não vê problema em trabalhar e, inclusive, sustentar as horas de lazer e conhecimento do marido (sim, Frank não precisaria trabalhar e, de sobra, teriam como contratar uma babá para as crianças). No ponto de vista de Frank, a idéia pareceu imatura, ainda mais proveniente de uma reportagem falando sobre Paris. Todos os documentos necessários e seus processos burocráticos foram cuidadosamente administrados por ela com muita disposição. Ela até conseguiu convencer o marido a aceitar a largar do emprego e perder o receio de contar a novidade para seus colegas de trabalho (principalmente seu chefe) e amigos. Porém, como havia dito antes, a covardia o resguarda de tal aventura. E a sorte sentou ao lado de Frank: um acontecimento pega o casal Wheeler de surpresa, para descontentamento de April.

Daí em diante, incerteza, nervosismo, tristeza, decepção e muitos outros sentimentos negativos se acumulam e viram uma bola de neve. Eles tentam manter o controle, mas parece impossível; um não colabora com o outro, mesmo quando ambos acham que estão ajudando de alguma forma em evitar mais discussões desnecessárias e diálogos cansativos. É difícil imaginar um final feliz para eles. Também é difícil dizer quem está certo e quem está errado. E quem é o senhor da razão e da verdade nesse mundo? Cada um vive à luz de sua experiência e agem na maneira como acham melhor. Nem sempre as reações são aceitas – e aqui nenhuma reação foi benéfica para ambos – e as brigas seguem desenfreadamente ladeira abaixo.

Não posso afirmar que o autor tem preferências por esse estilo de drama e finais infelizes. Sei que ele tem outros títulos – que, pelas sinopses que li, aparentemente possuem o mesmo tipo de enredo e cenário -, porém não tive a oportunidade de experimentá-los. Até me agradam esses gêneros literários, e a maneira como Yates escreve, sempre enfeitado com uma variedade de adjetivos e cenas que poderiam acontecer entre muitos parênteses, me cativou mais ainda.

Leia também:

    Foi apenas um sonho

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