The Cinematic Orchestra: Entr’acte / Manhatta

The Cinematic Orchestra: Entr'Acte

O grupo britânico The Cinematic Orchestra acaba de lançar mais duas belíssimas produções. Assim como em “Man With A Movie Camera”, filme experimental de 1929, o conjunto voltou a recriar a trilha sonora de mais dois curta-metragens da mesma época: “Entr’acte”, de 1924, e “Manhatta”, de 1921.

 

Os vinte minutos de duração de “Entr’acte” abordam várias cenas em movimento, sendo que algumas delas são capturadas em slow motion. Na transição sobreposta de alguns quadros, como a bailarina sendo ameaçada por um sombrio olhar (e quem sabe até vingativo), é possível sentir a tensão emocional graças à música conduzida por Cinematic Orchestra – mesmo que nesse momento tenha uma simples e linear sequência melódica. Sons confusos de violinos dão abertura à segunda parte do filme, cujo suspense é mantido solenemente com os arranques repentinos e agudos do mesmo instrumento até o desfecho trágico do atirador. A terceira parte é introduzida com notas sobressalentes do piano – a mesma propagação comovente percebida no trabalho anterior do grupo, “Ma Fleur” -, a maneira mais sensível de mostrar ao espectador a dor sentida pelos personagens do filme.

O mais interessante fica para o final: justo o trecho mais triste do filme, e talvez o mais delicado de todos (com a ajuda do slow motion), é que Cinematic Orchestra consegue dar mais sensibilidade ao público: em um fundo ecoante de órgão, dedilhados de violão se misturam gradativamente com notas soltas de teclado e piano. E é o violão sozinho que dá continuidade ao movimento dos carros na quarta e última parte da película, retomando aos poucos a saga dos corredores, agora em movimento natural, porém não por muito tempo. Em poucos segundos são substítuidos por ciclistas – e tal mudança é muito bem acompanhada de leves e aceleradas batidas. O piano retorna para conduzir o desfecho inusitado da trajetória fúnebre do atirador, respingando suaves notas de flauta.

 

Ainda que “Manhatta”, pequeno documentário que mostra a evolução da urbanização de Manhattan, não encante muito com sua abordagem tão trivial e rotineira, Cinematic Orchestra consegue novamente dar vida às cenas simples dos guindastes e dos operários trabalhando nas mais altas estruturas de metal e concreto. Pelo fato de não terem de acompanhar um roteiro, apenas sequências aleatórias de paisagens, é possível apreciar essa composição sozinha, como se fosse de autoria própria do conjunto. São onze minutos que devem ser ouvidos atentamente e, principalmente, no repeat do seu player.

 

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