Tão Forte e Tão Perto

Já faz um bom tempo que eu li “Extremely Loud & Incredibly Close” (“Extremamente Alto & Incrivelmente Perto” na edição brasileira), logo minha memória fraca guardou partes do livro que, por mais simples ou poéticas que sejam, ficaram registradas como vitais às características do personagem principal Oskar, menino afetado pela Síndrome de Asperger.
Esses detalhes acolhidos de maneira tão emotiva por mim infelizmente não foram selecionadas na adaptação para as telas do cinema. Até na tradução do título fizeram questão – esses brasileiros que se acham criativos! – de mudarem para “Tão Forte e Tão Perto”. Meu desapontamento em relação ao filme é muito particular, porém é visível que muito se perdeu da história até chegar no filme.
Eu posso citar apenas dois exemplos exonerados de qualquer importância para quem não leu o romance de Jonathan Safran Foer: a expressão heavy boots, usada por Oskar quando estava entristecido, e o amigo de sua mãe que o fazia ficar com muitos ciúmes (até nós mesmos ficaríamos, dado o fato de que a tragédia ainda era recente para a família), foram praticamente ignoradas no filme – o amigo da mãe sequer existe. As pombas brancas atravessando o céu como que um momento de nirvana também passaram literalmente em branco – desculpem o trocadilho infame. A cena do corpo caindo do World Trade Center logo no começo do filme inverte o enredo do livro, retratada em várias e sofridas páginas, para que o próprio leitor se encorajasse a folhea-las para dar o efeito de uma animação funesta.
A interpretação do garoto também deixou a desejar bastante. Levando em consideração a condição mental de Oskar, justificada com displicência no filme como “não conclusiva, de acordo com o resultado de todos os exames realizados”, o que vemos atuando é um menino completamente mimado pelo pai e irritado com minúsculos aborrecimentos do dia-a-dia. Apesar de não ser justo, faço a comparação com Elijah Wood em “Everything Is Illuminated”, também obra de Safran (“Tudo Se Ilumina” para os livros, “Uma Vida Iluminada” para os cinemas): é notável a semelhança do personagem do livro com o ator – ele realmente soube incorporar o papel do garoto estranho que colecionava tudo que vi à sua frente.
Mesmo assim, o filme captou parte do peso sentimental da versão literária. A mensagem transmitida também é válida: em meio a tanto sofrimento, não nos damos conta de que há muito mais pessoas ao nosso redor com o sofrimento igual, tão maior quanto ou muito mais do que o nosso, bastando a nós ter complacência pelo próximo.

