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Haunted
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06/07/2010Livro
Chuck Palahniuk chegou ao seu limite nesse livro. Seu objetivo era simples: criar histórias de horror e suspense em cima de fatos cotidianos. Ele conseguiu, mas de uma forma muito mais bizarra. Para se ter uma ideia, no lançamento, quando Palahniuk começou a ler o primeiro conto, trinta pessoas desmaiaram antes do término da leitura. Em outras ocasiões, esse número subiu para sessenta.Exagero? Talvez sim, porém quando eu terminei de ler, também fiquei me sentindo muito mal (quase que uma sensação de repulsa por ter conseguido chegar até o final). Chuck conseguiu criar uma coleção de estórias pesadas, mesmo tendo em mente que sua imaginação ultrapassa os princípios do absurdo e sempre esbarra em cenários sujos, grudentos e nojentos.
“Haunted” narra a história de dezessete pessoas que aceitam o convite do até então desconhecido Mr. Whittier a embarcarem em um retiro de três meses em um lugar totalmente afastado do mundo externo. Como parte do desafio, cada um dos participantes deveria levar o essencial do essencial em apenas uma mala. Todos poderiam sobreviver a essa aventura misteriosa com a seguinte condição: escrever, escrever e escrever.
E é exatamente assim que o livro se desenrola. Sempre com a narração de cada um dos personagens, precedido por um poema, cada conto exprime o passado sórdido banhado por assassinatos, chantagens, sabotagens e excessos, ou um simples acontecimento que marcou suas vidas (que, mesmo assim, não deixa de ter seu lado absurdo). A primeira experiência relatada, “Guts”, responsável pelos desmaios de tantas pessoas, é realmente a mais incompreensível de todas. Você não consegue acreditar como um vício pode levar alguém a quase cometer um suícidio ou, no caso desse personagem, deixar sequelas físicas até o presente momento – nem por isso, contudo, ele se arrepende do que fez.
Assim que comecei a ler, a lembrança de “O Caso Dos Dez Negrinhos” de Agatha Christie foi imediata. O cenário antes retratado em uma ilha deserta é substituído por um antigo teatro com cara de abandonado. Um ônibus resgata um por um, dando ao leitor as primeiras e estranhas impressões a medida que Chuck descreve as vestimentas e as características corporais deles. A chegada ao lugar recluso é introduzido pelo fragilizado cadeirante Mr. Whittier, organizador do evento, e sua secretária Mrs. Clark, cuja obediência e comprometimento escondem outros objetivos.
Uma modelo grávida, uma mulher com alergia crônica, uma reflexogista, um cozinheiro, um pintor amador, uma mulher rica que finge ser mendiga, uma freira, um homem com feições selvagens, outro homem que grava tudo que vê pela frente são só alguns exemplos que incitam o leitor a esquecer tudo o que já visto como anormal. A ambientação típica de um reality show mostra a disputa acirrada entre os participantes em ganhar o prêmio notório da fama: sair do teatro ofuscado pelas câmeras e flashes dos canais de televisão e revistas famosas. O estoque de comida não é suficiente, a energia elétrica é cortada, a água também acaba repentinamente. Mesmo dentro de um cenário tão caótico – e por que não apocalíptico? -, cada um dos personagens tenta o melhor de si para ser o grande vencedor, tentando se vangloriar em meio a tanta podridão (tanto da comida quanto dos que não conseguiram ter êxito na vida) e vestígios de sangue que vão manchando aos poucos o carpete do teatro.
Leia se tiver muito, mas muito estômago. E se você quiser assustar alguém, deixe o livro tomando luz durante o dia – a capa tem um brilho verde memorável à noite.
Tags: agatha christie, chuck palahniuk, haunted, mr whittier, mrs clark, o caso dos dez negrinhos, reality show -
02/07/2010Livro
Já sabia que o quinto livro de Jeff Lindsay para o nosso serial killer favorito envolveria canibalismo. E não é que a capa dá água na boca? O lançamento de “Dexter Is Delicious” está previsto para setembro – faltam poucos meses, mesmo contando com o prazo de entrega de edições importadas. Leia a seguir uma tradução bem livre que fiz da sinopse oficial:
Dexter Morgan sempre teve um vida homicida feliz. Ele mantém seus obscuros desejos sob controle aderindo a uma regra bem firme… ele apenas mata pessoas muito más. Mas agora Dexter está passando por algumas grandes mudanças em sua vida – quem não passa? -, sendo que a maioria delas está concentrada na curiosidade de sua filha recém-nascida. O auge da alegria familiar é interrompido, entretanto, quando Dexter é intimado a investigar o desaparecimento de uma garota de dezessete anos que andou na companhia de um grupo bizarro de góticos, os quais clamam em ser vampiros. A medida que Dexter chega mais perto da verdade do que aconteceu com a garota, ele percebe que os góticos são muito mais canibais do que propriamente vampiros. E o mais perturbador… esse grupo decidiu que seria uma ótima ideia comer Dexter.
Como sempre, o tom ácido de humor negro está presente em mais uma história absurda criada friamente – e especialmente – para o nosso querido Dexter.
Tags: canibalismo, dexter is delicious, jeff lindsay -
11/06/2010Livro
Lembro de ter assistido um tempo atrás o excelente “Notas Sobre Um Escândalo” (2006), protagonizado por Cate Blanchett e Judi Dench, cujo roteiro foi baseado na obra de Zoë Heller. Como já disse antes, passei por uma fase de ler livros que inspiraram adaptações para o cinema, o que resultou na aquisição de alguns exemplares – o próximo também é de um filme o qual eu gostei bastante.Em Notes On A Scandal, Barbara Covett faz o relato da história polêmica que se espalhou nos noticiários da Inglaterra inteira sobre o caso entre a professora de artes Bathsheba Hart (chamada somente por Sheba) e um de seus alunos do segundo ano, Steve Connolly. Todo os fatos são narrados por Barb, o que gera uma certa desconfiança quanto a veracidade das informações impressas em seu manuscrito.
Se fosse apenas a sequência dos acontecimentos, a obra de Zoë passaria despercebida – além do perigo de se tornar uma ficção chata e entediante. Para apimentar o thriller psicológico, a escritora usa astutamente de sua personagem principal para criar os comentários mais ácidos e politicamente incorretos que o humor inglês pode conceber. Ao contrário da perspicácia de Barb, sua mais nova amiga e confidente Sheba deposita toda sua demência – e não digo perjorativamente, visto que um de seus filhos é portador de Síndrome de Down – e falta de atitude até a última página do livro. É inacreditável como Sheba causa irritação nos leitores: uma mulher frustrada por ter se casado com um homem muito mais velho, arrependida de ter criado duas crianças, sendo que poderia ter aproveitado muito mais a vida se não as tivesse tido; pensamentos e sonhos que, na idade dela, já perto dos quarenta anos, não passam de devaneios infantis.
Essa infantilidade, aliás, cresce em proporção inversa ao nosso ceticismo. Não consegui crer na possibilidade de uma mulher se convencer piamente de que o relacionamento com um jovem de quinze anos era realmente verdadeiro. Mesmo com toda a amargura e ressentimento presentes nas anotações de Barb (além, claro, de suas observações degradantes sobre as pessoas que trabalham e convivem com ela), eu tive que dar razão à ela. Nesse ponto, Sheba deveria ter dado ouvidos à sua amiga-inimiga e terminado com essa aventura arriscada. Entretanto, se ela tivesse seguido seus conselhos, não haveria o ápice da história como a conhecemos no filme – cujo direcionamento, aliás, foi um pouco diferente do original.
Sheba se mostra uma pessoa irresponsável e egoísta, tentando levar seu romance proibido a frente como se isso não fosse interferir tanto na sua reputação como professora como na da própria família – sem contar as consequências na família de Steve. Contudo, nada supera a possessividade excessiva de Barbara em querer ter Sheba não somente como colega de trabalho e amiga, mas como uma companheira para dividir toda sua vida a todo instante. Esse tipo de amor platônico já tinha se instaurado com uma outra personagem, Jennifer, amiga que Barb cita algumas vezes para comparar as atitudes reprovadoras de Sheba. Barbara faz de tudo para se aproximar de sua nova obsessão, tentando se embrenhar no cotidiano da família sem se passar por intrusiva e intransigente (o que, no final das contas, não funciona) e tentando afastar qualquer pessoa que seja potencial em criar um resquício que seja de amizade com Sheba. O desfecho não poderia ser outro: Barbara consegue manipular ao seu melhor estilo a vida conturbada de Sheba, que, mesmo depois de tudo o que aconteceu, continua se mostrando uma pessoa imatura, indecisa e apática.
Zoë Heller pelo visto é perita em criar situações conflitantes entre relacionamentos, sejam eles entre duas pessoas ou entre familiares. Assim que puder, vou atrás de seus outros dois livros, Everything You Know (1999) e The Believers (2008). Histórias que só os britânicos têm o dom witty de escrever.
Lembro de ter assistido um tempo atrás o filme Notas Sobre Um Escândalo, baseado na obra de Zoë Heller. Como já disse antes, passei por uma fase de ler livros que inspiraram adaptações para o cinema.Tags: barb, barbara covett, batsheba hart, cate blanchett, everything you know, judi dench, notas sobre um escândalo, notes on a scandal, sheba, steve connolly, the believers, zoë heller -
14/05/2010Livro
Sempre levo comigo a ideia de que uma adaptação ao cinema nunca se compara – mesmo chegando perto – à obra literária. Dessa vez não foi o que aconteceu: o filme provou ser muito melhor do que o original Up In The Air, escrito por Walter Kirn, editor de revistas mundiais como GQ, Time e Vanity Fair.(Enquanto você lê, tente não fazer qualquer associação ao filme, pois seu roteiro toma um rumo totalmente diferente do livro, respeitando somente os nomes dos principais personagens.)
Ryan Bingham é um executivo, já nos seus trinta e cinco anos, cuja empresa para onde trabalha, a ISM (Integrated Strategic Management – Gerenciamento Estratégico Integrado), não o satisfaz mais. Está prestes a largar sua função de CTC (Career Transition Counselor – Consultor de Transição de Carreira): demitir pessoas ao mesmo tempo em que as motiva para conseguir outro sem se desesperarem; mas antes disso precisa voar para mais algumas cidades e visitar os últimos clientes que lhe foram incumbidos. Ao mesmo tempo em que viaja de um lugar para o outro – esse templo de nuvens tão admirado por ele, chamado carinhosamente de Airworld -, tem como meta alcançar um único desejo: ganhar um milhão de milhas.
Como segundo objetivo, a princípio não muito importante, Bingham tenta persuadir Morris Dwight, editor responsável em aprovar ou não seu livro The Garage, escrito em suas horas vagas antes de dormir. Além disso, Ryan faz de tudo para descobrir quem está por trás da MythTech, empresa que, segundo suas especulações, está rastreando de alguma forma seu trajeto aéreo, visto que é um forte candidato para se trabalhar lá. Sua vida pessoal é retratada em alguns momentos pela sua família, principalmente por sua irmã mais nova Julie – cujos problemas de relacionamento acabam interferindo algumas viagens de Ryan -, já que sua própria vida se resume ao status de divorciado, sem muitos detalhes.
Um dos motivos pelos quais me incentivaram a quase parar de ler é a maneira como a história é conduzida: cada capítulo é uma situação isolada – e não adianta tentar acompanhar a escala de voos no começo do livro, você se perderá mais ainda -, descrevendo cada personagem, que são vários, como se já fossem velhos conhecidos da primeira página. É uma coleção chata das reuniões de negócios que Ryan realiza com seus clientes, cujos diálogos curtos e soltos passam despercebidos quando você pula para a linha seguinte. O primeiro cliente, aliás, não condiz com o escopo de trabalho dele: Art Krusk, dono de um buffet mexicano, busca auxílio nas recomendações de Bingham para reverter a imagem negativa que sua mulher fez questão de deixar – ela contaminou a comida do buffet com fezes. Até agora me pergunto quando Ryan realmente despediu alguém, pois em todos os episódios sua função se transforma em consultor de crises corporativas.
O desfecho do trajeto de Ryan parece inacabado, porém já deveria ter percebido tal falha: a superficialidade contida no comportamente de Ryan, seja pela sua grande experiência em lidar com funcionários (todos eles de aeroportos, companhias aéreas ou hotéis) ou pela aparente segurança que transmite ao lidar – e às vezes esnobar – com clientes, colegas de trabalho, amigos, parentes e amantes, faz com que a história seja desinteressante, assim como os próprios livros escritos por famosos executivos já aposentados que Kirn cita com frequencia. Será essa a razão pela qual ele não foi chamado para comparecer à cerimônia do Oscar?
Tags: airworld, ryan bingham, up in the air, walter kirn -
03/05/2010Livro
Kurt Vonnegut me surpreende mais uma vez, mesmo sendo seu terceiro título que leio até agora. Mother Night (não sei dizer se foi traduzido para o português) é a história de Howard W. Campbell, Jr. narrada em capítulos soltos, que vão e voltam a medida que os fatos e os personagens se reconectam para dar o entendimento final ao leitor. Atualmente em um presídio na velha Jerusalém, com a ajuda de uma máquina de escrever, Campbell consegue transcrever seus memórias antes de sua sentença.O primeiro capítulo tenta explicar a confusão de papéis que Howard incorpora ao longo do livro: americano de nascimento, nazista por reputação e sem-nação por inclinação. Logo após a Primeira Guerra Mundial mudou-se para a Alemanha, lugar onde edificou sua vida como escritor de peças de teatro (tornando-se fluente na língua desse país e, de certa forma, esquecendo um pouco da nativa). Nada mais do que um disfarce para a função de propagandista nazista, cuja disseminação de suas mensagens, de acordo com muitos dos personagens que reconhecem Campbell pelo seu passado criminoso, foram vitais para o fortalecimento do reinado de Hitler. Como se não bastasse, Howard também se revela um espião a favor do exército norte-americano.
O cinismo de Howard é impressionante. A forma desdenhosa como ele trata a vida miserável dos que estão à sua volta (com exceção de sua falecida esposa, única pessoa a quem ele realmente venera), sua crença de ser o precursor ou criador de qualquer marco importante da História (suas peças de teatro, cujos roteiros foram deixados na Alemanha quando se refugiou em Nova York, se tornaram famosos no país inteiro após suas publicações) e, pricipalmente, sua notoriedade propagandista lembrada no mundo todo – mesmo que na realidade essa notoriedade se dê pela sua captura e não pelo reconhecimento como nazista – chegam a irritar um pouco.
Talvez, entretanto, seja essa a ideia de Kurt. Irritar por pura provocação. O humor negro se mistura com o cinismo de uma maneira muito divertida, arrancando algumas boas risadas diante de certas situações inusitadas (como, por exemplo, o reencontro com sua mulher dita como morta e o breve encontro com Hitler, a pedido dele, para saudá-lo e elogia-lo por seu excelente trabalho). A guerra novamente é o cenário para sua história, mas acho que isso deve ser uma característica recorrente na maioria de seus livros, dado o fato de já ter participado de uma. Apesar de ter sido escrito em 1961, o livro parece ser tão atual quanto Hocus Pocus, publicado na década de 90. E mesmo com um final evidente, encerrado em menos de duzentas páginas, dá vontade de ler mais registros do multifacetado Howard W. Campbell, Jr.
Tags: alemanha, espião, guerra, hitler, howard w campbell jr, kurt vonnegut, mother night, primeira guerra mundial, propagandista nazista -
23/04/2010Livro
Depois da morte de J.D. Salinger, assim como a de qualquer outro autor, ressuscitam as reedições nas livrarias de todo o mundo. Apesar de ter alguns títulos na sua prateleira, apenas um foi o que lançou Salinger (mesmo contra sua vontade) ao carpete da fama, deixando as outras obras ofuscadas e até esquecidas. Nine Stories (Nove Estórias, em português) é uma coleção – adivinhem! – de nove estórias sem qualquer objetivo de transmitirem alguma mensagem ou lição de moral no final de cada uma delas.O primeiro conto, A Perfect Day For Bananafish, é o melhor de todos, com um final abrupto e que causa surpresa (um susto, eu diria), apesar de criar uma boa expectativa para as outras estórias – o que, de fato, se prova o contrário. Uncle Wiggily in Connecticut narra a vida aparentemente independente de uma mãe até surgir sua filha com problemas os quais ela não consegue lidar. Em Just Before The War With The Eskimos, a atração de uma garota delicada pelo irmão sem modos de sua amiga é o tema principal. The Laughing Man mistura o clima de histórias de pescador (um homem com o rosto desfigurado aterroriza as pessoas que insistem em ve-lo sem a máscara) com um relacionamento estranho entre uma menina e um cacique.
Down at the Dinghy ilustra as travessuras de um garoto e a conversa longa que ele tem com sua mãe, a fim de entender esse lado revoltado do filho. For Esmé – With Love And Squalor relata a cena de uma menina de doze anos se insinuando para um soldado americano que, como promessa, ficou de escrever uma carta a ela (daí o título do conto, que na verdade só serviu de cenário para retratar as sequelas irreparáveis do personagem após a guerra). Em Pretty Mouth and Green My Eyes, tudo que você imagina como final para a conversa sem fim entre dois homens ao telefone se desfaz com um desfecho completamente simplista – será que foi de propósito? De Daumier-Smith’s Blue Period narra as desventuras de um professor em uma escola de artes no Canadá dirigida por um casal de japoneses e o início de um amor praticamente impossível. A última estória, a mais estranha de todas, dá destaque para um menino superdotado, cujas revelações feitas em um programa de rádio deixam as pessoas estarrecidas.
O conteúdo das estórias são superficiais, entretanto isso não deve servir de motivo para largar o livro pela metade. Imagino que Salinger tenha tido o mesmo pensamento: entreter seus leitores enquanto esperam no ponto de ônibus ou aguardam serem chamados para uma consulta.
Tags: j.d. salinger, nine stories -
16/04/2010LivroNota: Leia a ótima resenha que meu amigo Giovane fez sobre o filme. Aqui eu me encarrego das peculiaridades do livro.
Estou na fase de ler livros que inspiraram filmes. Foi o caso de Shutter Island (Ilha do Medo), livro escrito por Dennis Lehane, cuja adaptação para as telas do cinema – excepcionalmente adaptada, posso dizer com propriedade – ficou nas mãos de Martin Scorsese.Por mais fiel que uma adaptação seja à obra literária, determinados momentos são impossíveis de serem interpretados visualmente. Apesar de ter tirado completamente minha imaginação por ter visto o filme antes, não julguei como um fator negativo. Os personagens, não todos, têm suas descrições levemente alteradas, como por exemplo Cawley, psiquiatra com olheiras profundas e com uma fisionomia muito mais cadavérica, e a cicatriz visível no rosto de Chuck Aule.
Algumas cenas são mais detalhadas e até mais complexas. O código deixado pela paciente fugitiva Rachel Solando deixa várias incógnitas até quase o final do livro: há mais números que, de acordo com os cálculos de Teddy – raciocínio tão rápido que nem Cawley nem seu parceiro Chuck conseguem acompanhar -, chegam a um único número, a chave para solucionar o mistério em torno da ilha e todos que ali trabalham. O cemitério com o qual a dupla de detetives se depara no meio da tempestade (que no livro, aliás, é o início de um forte furacão, chegando a derrubar árvores no escritório principal do hospital) tem sua devida explicação na história: lá é o primeiro lugar onde Teddy planeja ir para se certificar de que o assassino de sua esposa, Andrew Laeddis, está realmente morto. Além disso, um pouco mais adiante do cemitério, eles avistam várias pilhas de pedras as quais, segundo as conjecturas conspiradoras de Teddy, foram montadas uma a uma por Rachel.
Logo após a tempestade, quando a queda de energia dá chance aos detetives de se embrenharem na Ala C sem serem reconhecidos por causa de suas roupas de funcionário, a sorte não veio assim com tanta facilidade: o guarda que vigiava a entrada dessa ala os reconhece, mas graças à braveza de Teddy, eles conseguem entrar. A cena em que Teddy dá de cara com um dos diretores do hospital que tenta, em vão, dar uma injeção nele, não existe. Eles têm de passar por muitos funcionários, vigias e prisioneiros lunáticos (temporariamente livres pelo fato de as grades serem elétricas), até chegarem ao andar onde está George Noyce.
As cenas em que achei ser um pouco fora da realidade, tais como a descida de Teddy penhasco abaixo e a marcha desordenada de ratos na beira da praia, se fizeram por concretas no livro (fato que em parte é testemunhado por Chuck ao avistar seu parceiro indo em direção às pedreiras; os ratos são mencionados como residentes de longa data na ilha desde o começo da história). A saga para chegar ao farol é muito mais trabalhosa no livro: mesmo antes de nadar até lá, Teddy tem de encarar alguns minutos escondido na traseira da balsa – já que todos os funcionários estavam a procura dele -, com metade do corpo encoberto pela água gelada e, como se não bastasse, seres estranhos ameaçando suas pernas.
Os sonhos de Teddy são mais longos, mais confusos e mais violentos. O filme não mostra praticamente metade do que Teddy enfrentou durante suas noites de alucinações, talvez por causa dos momentos em que Scorcese preferiu dar destaque aos campos de concentração, até então inexistentes no livro. Alguns momentos de intimidade entre Teddy e sua esposa também foram poupados no filme, os quais, creio eu, deveriam fazer parte para que ela não se tornasse um fantasma coadjuvante na trama. As cenas que mais me impressionaram no filme – a do corredor escuro, iluminado brevemente pelos fósforos, e a do lago – me surpreenderam mais ainda no livro. A descrição dos passos cautelosos de Teddy intensifica o suspense de maneira inagualável; no lago, Teddy imagina com angústia a todo instante o sofrimento dos personagens que estiveram presentes em sua vida (uma verdadeira tortura psicológica, dada a situação desesperadora em que ele se encontrava).
Os minutos reveladores do filme são mais teimosos no livro: a relutância de Teddy em acreditar no que está ouvindo se estende por várias páginas (para quem já tinha visto o filme, a tentação de pular essa parte é grande); o detetive não dá o braço a torcer e só se dá conta do que realmente está acontecendo quando acorda ao lado da enfermeira – outra cena que, de longe, é mais interessante na leitura.
Acho uma pena, mas também não me culpo por isso, ser apresentado ao filme antes que a obra original. Gosto de conhecer o autor e sua técnica literária antes de qualquer adaptação. Prefiro ver por um lado mais positivo: às vezes é a sétima arte que nos dá a oportunidade de ter mais gosto pela leitura.
Tags: andrew laeddis, cawley, chuck aule, dennis lehane, george noyce, ilha do medo, martin scorsese, rachel solando, shutter island, teddy -
26/02/2010Livro
Depois de ler Hocus Pocus, posso afirmar agora que Kurt Vonnegut possui um nível mais que satisfatório de sarcasmo e humor negro. Era exatamente o que estava esperando, visto que não encontrei essas qualificações em Slaughterhouse-Five.Mesmo sendo um dos últimos livros publicados antes de sua morte, ainda na década de 90, o passado predomina a vida de Eugene Debs Hartke (acho estranho associar Eugene ao sexo masculino, mas enfim, não vem ao caso) em uma série de memórias escritas durante seu confinamento na biblioteca de uma antiga faculdade para pessoas especiais – não sei como traduzir learning-disabled de forma politicamente correta – que, nos tempos presentes, funciona como um presídio.
O ano em questão é 2001, 61 anos de experiência contados de uma maneira aparentemente inocente, sem perceber que na verdade – pelo menos é a impressão que tive desde as primeiras páginas – sua vida até aqui se caracteriza por uma coletânea dos próprios fiascos e infortúnios que levaram a vida de muitos de seus amigos, colegas de trabalho ou apenas conhecidos. Talvez a única sorte que Eugene tenha tido em sua vida foi não tê-la perdido.
É impossível conter as risadas, aquelas que persistem em puxar o canto da sua boca enquanto você lê silenciosamente no ônibus ou no metrô, em cada trecho narrado por Hartke. Trechos de quando ele se casou com uma mulher louca e renegou a educação dos filhos por receio de que ficassem tão desequilibrados quanto a mãe; de como ele acidentalmente participou da guerra no Vietnã em troca do futuro em uma universidade renomada; de quando ele começou a lecionar na Faculdade Tarkington (família cujos genes carregam a dislexia como herança); de como ele foi acusado e preso pela fuga dos presos (nem ele sabe direito como isso aconteceu, ou simplesmente não se conforma); de como seus colegas soldados morreram na guerra e como um de seus colegas professores morreu crucificado (sim, por mais trágico que seja, é uma das mortes mais hilárias).
Eugene também serve como pano de fundo para muitas das críticas de Vonnegut, todas muito bem afiadas, à sociedade e seu falso moralismo, ao choque de culturas (principalmente entre os asiáticos), à discriminação entre as classes sociais, ao jogo de interesses na economia mundial e, claro, à guerra. São várias as reflexões, mas para que bancar o crítico antropólogo se o intuito é se divertir?
E eu acho que descobri qual é o número de pessoas que Eugene matou durante a guerra, o mesmo número de mulheres com quem ele já fez sexo. Caso você não tenha sido tão inteligente como eu tido o mesmo êxito que eu, Kurt deixa um recadinho de consolo:
Tags: eugene debs hartke, faculdade tarkington, guerra, hocus pocus, kurt vonnegut, slaughterhouse five, vietnãJust because some of us can read and write and do a little math, that doesn’t mean we deserve to conquer the Universe.
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Diary
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12/02/2010Livro
Acho que nunca vou parar de me surpreender com as sandices de Chuck Palahniuk. Diary (em português, Diário) é uma de suas histórias de terror (as outras são Lullaby e Haunted), terror esse que não surge repentinamente. Explico.Antes de tudo, devo ressaltar que a marginalidade de seus personagens nas publicações anteriores ainda permanece, pelo menos nesse livro. A protagonista é Misty Wilmot que desde criança, quando morava com a mãe em um trailer, desejava ser reconhecida no mundo das artes. Contudo, teve seu sonho destruído pelo marido Peter, atualmente em coma devido a uma tentativa de suicídio.
A história é contada em forma de um diário, justamente para retratar a trajetória fracassada de Peter quando ingressou na faculdade de artes e conheceu Misty – para, quem sabe um dia, ele ter a chance de ler o que aconteceu durante seu coma. Era para Misty ser uma pintora renomada no mundo inteiro, como dito antes, porém o que lhe restou foi trabalhar de empregada no único hotel de Waytansea Island, região contaminada pelos turistas nas altas temporadas. O dinheiro se esvaiu na mão do marido que, mesmo vegetativo, recebe processos e ameaças de clientes cujos cômodos de suas casas de veraneio simplesmente sumiram: uma cozinha, um closet, um quarto, e assim por diante.
Até a metade das páginas, não consegui sentir um fio de cabelo arrepiado ou aquela angústia seguida do desespero. Onde está o terror? Só lia mais e mais páginas com sacarsmo transbordando a superfície do humor negro – um prato cheio para ácidas risadas. O suspense se torna mais apreensivo sem você perceber, desafiando sua concentração em meio a tantos detalhes que Chuck faz questão de descrever em cada cena, cada situação, cada quadro rabiscado por Misty. As coleções de porcelana que Grace, sogra de Misty, ensina para sua neta Tabitha (chamada o tempo todo de Tabbi), os tipos de pincéis, canetas e as tonalidades de cores que Misty compra para começar a pintar, as expressões faciais sob um vocabulário mais científico (levator labii superioris), o carpete, as cortinas e os lustres do salão do hotel, as lições de grafologia, as doenças que inspiraram o dom artístico de vários pintores famosos.
Para quem não está acostumado com a técnica de escrever de Palahniuk, talvez se irrite um pouco com tantos rodeios, todos eles propositais para que você se infiltre no suspense e não saia dele tão cedo. Aparentemente nada acontece na ilha, contudo são as pequenas revelações que fazem as surpresas mais impactantes da história entre tantas ações cotidianas: o trabalho de Misty, as leituras que Grace faz em seu misterioso diário, as investigações do detetive sobre os atos de vandalismo nas casas de veraneio, os encontros de Misty com seu único amigo Angel Delaporte (um dos clientes prejudicados pelos cômodos desaparecidos).
O final é surpreendente, para não dizer bizarro. Fico em cima do muro ao dizer se já esperava tal desfecho ou não – ainda mais vindo da cabeça louca de Palahniuk. Os últimos acontecimentos são narrados rapidamente, os detalhes agora são poupados, deixando as indagações do leitor à deriva. Eu mesmo precisei voltar algumas páginas para ver se eu tinha entendido o que estava lendo, se estava acompanhando – e ao mesmo tempo acreditando – a sequência dos fatos. Conspiração, insanidade, alucinações, pessoas ressuscitadas (?), assassinato, encarnação… no final você entende porque é um conto de terror.
Tags: angel delaporte, chuck palahniuk, diário, diary, grace, misty wilmot, peter, tabbi, tabitha, terror -
05/02/2010Livro
Na ânsia de comprar todos os livros do Chuck Palahniuk, o vendedor me sugeriu Kurt Vonnegut, cuja forma de escrever serviu de influência para Chuck (fato que concordo com o funcionário da loja em certos aspectos). É um famoso autor norte-americano e de ascedência germânica que, até sua morte em 2007, escreveu vários títulos, todos cercados de muito humor negro e ficção científica. Esse em questão, Slaughterhouse-Five (foi traduzido igual para português: Matadouro 5), é praticamente uma autobiografia do que Kurt vivenciou quando soldado e prisioneiro na Segunda Guerra Mundial.No primeiro capítulo, Kurt explica como pensou e decidiu em escrever essa história com um cunho totalmente antiguerra. Nada de vangloriar os vitoriosos – se é que existe algum quando o saldo é contabilizado por baixas -, apenas fatos nus e crus do cenário durante e pós-guerra. E é exatamente dessa maneira como Vonnegut descreve o que testemunhou na cidade bombardeada de Dresden, Alemanha: situação precária dos soldados (inclua fome, sede e sujeira), cenas apocalípticas depois do bombardeio, tiroteios e execuções para todos os lados. O nome da obra, aliás, é justamente o lugar onde Kurt ficou abrigado na época, dias antes da cidade ter sido totalmente devastada.
Kurt não tem uma sequência temporal dos acontecimentos. Ele justifica essa característica ao criar um personagem cujo tempo não existe para ele: Billy Pilgrim é transportado em vários momentos de sua vida, desde a infância até a véspera de sua morte. Através dessas passagens, em que a explicação se complementa com o sequestro dele por extraterrestres (Tralfamadorianos – de onde ele tirou esse nome?), seres super desenvolvidos em relação aos humanos – esse cliché nunca será desfeito – que não entendem nossa concepção de tempo, já que eles têm o poder de passear por ele em quatro dimensões. É outra forma de Vonnegut dizer que nós deveríamos guardar somente as boas lembranças, deixando para trás os maus momentos e, assim, enterrando nosso ódio e sede de vingança – muitas vezes a causa de tantas guerras.
Não classificaria o livro como ficção-científica só por conter alienígenas na história. Para mim, o autor deixou bem claro ao final do livro o motivo pelo qual Billy insiste tanto em ter sido abduzido e, principalmente, suas andanças pelo tempo. O humor ácido que tantos falam ser uma característica presente em suas obras passou despercebido por mim. Fora um ou outro trecho cômico – o que não considero humor negro -, o autor consegue ser levemente engraçado. Por ser um livro que retrata a guerra, não consegui encontrar o sarcasmo afiado que também tanto li por aí. Aliás, tive até dó de Billy: um personagem catatônico que é humilhado sem se dar conta de que está fazendo papel de palhaço, sendo que seus amigos não têm a devida paciência ou, pior, simplesmente não suportam vê-lo na frente. Será que Kurt se sentiu assim quando esteve na guerra? Talvez tenha sido uma dura realidade disfarçada em ficção.
Tags: alemanha, alienígenas, dresden, extraterrestres, ficção científica, guerra, humor negro, kurt vonnegut, matadouro 5, segunda guerra mundial, slaughterhouse five, tralfamadorianos





































Falou e disse