Zé Offline
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26/02/2010Livro
Depois de ler Hocus Pocus, posso afirmar agora que Kurt Vonnegut possui um nível mais que satisfatório de sarcasmo e humor negro. Era exatamente o que estava esperando, visto que não encontrei essas qualificações em Slaughterhouse-Five.Mesmo sendo um dos últimos livros publicados antes de sua morte, ainda na década de 90, o passado predomina a vida de Eugene Debs Hartke (acho estranho associar Eugene ao sexo masculino, mas enfim, não vem ao caso) em uma série de memórias escritas durante seu confinamento na biblioteca de uma antiga faculdade para pessoas especiais – não sei como traduzir learning-disabled de forma politicamente correta – que, nos tempos presentes, funciona como um presídio.
O ano em questão é 2001, 61 anos de experiência contados de uma maneira aparentemente inocente, sem perceber que na verdade – pelo menos é a impressão que tive desde as primeiras páginas – sua vida até aqui se caracteriza por uma coletânea dos próprios fiascos e infortúnios que levaram a vida de muitos de seus amigos, colegas de trabalho ou apenas conhecidos. Talvez a única sorte que Eugene tenha tido em sua vida foi não tê-la perdido.
É impossível conter as risadas, aquelas que persistem em puxar o canto da sua boca enquanto você lê silenciosamente no ônibus ou no metrô, em cada trecho narrado por Hartke. Trechos de quando ele se casou com uma mulher louca e renegou a educação dos filhos por receio de que ficassem tão desequilibrados quanto a mãe; de como ele acidentalmente participou da guerra no Vietnã em troca do futuro em uma universidade renomada; de quando ele começou a lecionar na Faculdade Tarkington (família cujos genes carregam a dislexia como herança); de como ele foi acusado e preso pela fuga dos presos (nem ele sabe direito como isso aconteceu, ou simplesmente não se conforma); de como seus colegas soldados morreram na guerra e como um de seus colegas professores morreu crucificado (sim, por mais trágico que seja, é uma das mortes mais hilárias).
Eugene também serve como pano de fundo para muitas das críticas de Vonnegut, todas muito bem afiadas, à sociedade e seu falso moralismo, ao choque de culturas (principalmente entre os asiáticos), à discriminação entre as classes sociais, ao jogo de interesses na economia mundial e, claro, à guerra. São várias as reflexões, mas para que bancar o crítico antropólogo se o intuito é se divertir?
E eu acho que descobri qual é o número de pessoas que Eugene matou durante a guerra, o mesmo número de mulheres com quem ele já fez sexo. Caso você não tenha sido tão inteligente como eu tido o mesmo êxito que eu, Kurt deixa um recadinho de consolo:
Tags: eugene debs hartke, faculdade tarkington, guerra, hocus pocus, kurt vonnegut, slaughterhouse five, vietnãJust because some of us can read and write and do a little math, that doesn’t mean we deserve to conquer the Universe.
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Diary
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12/02/2010Livro
Acho que nunca vou parar de me surpreender com as sandices de Chuck Palahniuk. Diary (em português, Diário) é uma de suas histórias de terror (as outras são Lullaby e Haunted), terror esse que não surge repentinamente. Explico.Antes de tudo, devo ressaltar que a marginalidade de seus personagens nas publicações anteriores ainda permanece, pelo menos nesse livro. A protagonista é Misty Wilmot que desde criança, quando morava com a mãe em um trailer, desejava ser reconhecida no mundo das artes. Contudo, teve seu sonho destruído pelo marido Peter, atualmente em coma devido a uma tentativa de suicídio.
A história é contada em forma de um diário, justamente para retratar a trajetória fracassada de Peter quando ingressou na faculdade de artes e conheceu Misty – para, quem sabe um dia, ele ter a chance de ler o que aconteceu durante seu coma. Era para Misty ser uma pintora renomada no mundo inteiro, como dito antes, porém o que lhe restou foi trabalhar de empregada no único hotel de Waytansea Island, região contaminada pelos turistas nas altas temporadas. O dinheiro se esvaiu na mão do marido que, mesmo vegetativo, recebe processos e ameaças de clientes cujos cômodos de suas casas de veraneio simplesmente sumiram: uma cozinha, um closet, um quarto, e assim por diante.
Até a metade das páginas, não consegui sentir um fio de cabelo arrepiado ou aquela angústia seguida do desespero. Onde está o terror? Só lia mais e mais páginas com sacarsmo transbordando a superfície do humor negro – um prato cheio para ácidas risadas. O suspense se torna mais apreensivo sem você perceber, desafiando sua concentração em meio a tantos detalhes que Chuck faz questão de descrever em cada cena, cada situação, cada quadro rabiscado por Misty. As coleções de porcelana que Grace, sogra de Misty, ensina para sua neta Tabitha (chamada o tempo todo de Tabbi), os tipos de pincéis, canetas e as tonalidades de cores que Misty compra para começar a pintar, as expressões faciais sob um vocabulário mais científico (levator labii superioris), o carpete, as cortinas e os lustres do salão do hotel, as lições de grafologia, as doenças que inspiraram o dom artístico de vários pintores famosos.
Para quem não está acostumado com a técnica de escrever de Palahniuk, talvez se irrite um pouco com tantos rodeios, todos eles propositais para que você se infiltre no suspense e não saia dele tão cedo. Aparentemente nada acontece na ilha, contudo são as pequenas revelações que fazem as surpresas mais impactantes da história entre tantas ações cotidianas: o trabalho de Misty, as leituras que Grace faz em seu misterioso diário, as investigações do detetive sobre os atos de vandalismo nas casas de veraneio, os encontros de Misty com seu único amigo Angel Delaporte (um dos clientes prejudicados pelos cômodos desaparecidos).
O final é surpreendente, para não dizer bizarro. Fico em cima do muro ao dizer se já esperava tal desfecho ou não – ainda mais vindo da cabeça louca de Palahniuk. Os últimos acontecimentos são narrados rapidamente, os detalhes agora são poupados, deixando as indagações do leitor à deriva. Eu mesmo precisei voltar algumas páginas para ver se eu tinha entendido o que estava lendo, se estava acompanhando – e ao mesmo tempo acreditando – a sequência dos fatos. Conspiração, insanidade, alucinações, pessoas ressuscitadas (?), assassinato, encarnação… no final você entende porque é um conto de terror.
Tags: angel delaporte, chuck palahniuk, diário, diary, grace, misty wilmot, peter, tabbi, tabitha, terror -
05/02/2010Livro
Na ânsia de comprar todos os livros do Chuck Palahniuk, o vendedor me sugeriu Kurt Vonnegut, cuja forma de escrever serviu de influência para Chuck (fato que concordo com o funcionário da loja em certos aspectos). É um famoso autor norte-americano e de ascedência germânica que, até sua morte em 2007, escreveu vários títulos, todos cercados de muito humor negro e ficção científica. Esse em questão, Slaughterhouse-Five (foi traduzido igual para português: Matadouro 5), é praticamente uma autobiografia do que Kurt vivenciou quando soldado e prisioneiro na Segunda Guerra Mundial.No primeiro capítulo, Kurt explica como pensou e decidiu em escrever essa história com um cunho totalmente antiguerra. Nada de vangloriar os vitoriosos – se é que existe algum quando o saldo é contabilizado por baixas -, apenas fatos nus e crus do cenário durante e pós-guerra. E é exatamente dessa maneira como Vonnegut descreve o que testemunhou na cidade bombardeada de Dresden, Alemanha: situação precária dos soldados (inclua fome, sede e sujeira), cenas apocalípticas depois do bombardeio, tiroteios e execuções para todos os lados. O nome da obra, aliás, é justamente o lugar onde Kurt ficou abrigado na época, dias antes da cidade ter sido totalmente devastada.
Kurt não tem uma sequência temporal dos acontecimentos. Ele justifica essa característica ao criar um personagem cujo tempo não existe para ele: Billy Pilgrim é transportado em vários momentos de sua vida, desde a infância até a véspera de sua morte. Através dessas passagens, em que a explicação se complementa com o sequestro dele por extraterrestres (Tralfamadorianos – de onde ele tirou esse nome?), seres super desenvolvidos em relação aos humanos – esse cliché nunca será desfeito – que não entendem nossa concepção de tempo, já que eles têm o poder de passear por ele em quatro dimensões. É outra forma de Vonnegut dizer que nós deveríamos guardar somente as boas lembranças, deixando para trás os maus momentos e, assim, enterrando nosso ódio e sede de vingança – muitas vezes a causa de tantas guerras.
Não classificaria o livro como ficção-científica só por conter alienígenas na história. Para mim, o autor deixou bem claro ao final do livro o motivo pelo qual Billy insiste tanto em ter sido abduzido e, principalmente, suas andanças pelo tempo. O humor ácido que tantos falam ser uma característica presente em suas obras passou despercebido por mim. Fora um ou outro trecho cômico – o que não considero humor negro -, o autor consegue ser levemente engraçado. Por ser um livro que retrata a guerra, não consegui encontrar o sarcasmo afiado que também tanto li por aí. Aliás, tive até dó de Billy: um personagem catatônico que é humilhado sem se dar conta de que está fazendo papel de palhaço, sendo que seus amigos não têm a devida paciência ou, pior, simplesmente não suportam vê-lo na frente. Será que Kurt se sentiu assim quando esteve na guerra? Talvez tenha sido uma dura realidade disfarçada em ficção.
Tags: alemanha, alienígenas, dresden, extraterrestres, ficção científica, guerra, humor negro, kurt vonnegut, matadouro 5, segunda guerra mundial, slaughterhouse five, tralfamadorianos -
28/01/2010Livro
Unfinished business. Não tem expressão melhor para definir o que senti quando terminei de ler “Julie, Naked”, último livro escrito por Nick Hornby.A história me convenceu de que seria um bom enredo pop, ainda mais quando se trata de um autor tão contemporâneo como Nick. Annie e Duncan são um casal que, juntos há quinze anos, caçam qualquer tipo de informação, boato ou rumor que leve à Tucker Crowe, cantor e compositor famoso da década de 80 (também é um personagem, não confundam com a realidade) que, depois de lançar seu álbum “Juliet”, simplesmente desapareceu do mapa. A história, por sinal, começa com Annie tirando uma foto de Duncan dentro do banheiro onde supostamente Tucker foi visto pela última vez.
Esse fanatismo, porém, só é mais exaltado por Duncan, sentimento o qual sua companheira (eles em nenhum momento são definidos como casados oficialmente) não compartilha inteiramente. É o ponto de partida para as reflexões de Annie: será que seu relacionamento de quinze anos foi uma perda de tempo? Estar ao lado de um cara que vive em função de um cantor e não dela? Ela também teve sua parcela de culpa, ao meu ver, pois Annie passivamente aceitou a ideia e de certa forma se acomodou tanto com o parceiro como com o trabalho que tem – inclusive na cidade onde moram, Gooleness, um marasmo só.
O próprio Tucker aparece na história, deixando de ser uma lenda da música e, aos poucos, se tornando parte da realidade e da vida de Annie. Aqui dou minhas palmas de elogio para Hornby: ele se deu o trabalho de criar uma página na Wikipedia para o cantor, além de descrever as músicas dos discos e os artistas com quem ele pode ser comparado. O título da obra, aliás, é o título que leva o trabalho ainda não lançado de Tucker, uma versão acústica de “Julie” enviada por correio por um crítico de revista para Duncan.
Esse é o momento de transição do livro em que eu tinha esperança de que a história terminasse de alguma forma plausível. Os personagens se distanciam, cada um tomando capítulos separados. As reflexões de Annie se tornam cada vez mais inseguras e confusas, chegando ao ponto de serem irritantes. Como pode uma mulher desperdiçar tanto tempo de sua vida com um homem que nunca se importou com ela e, ainda assim, não ter certeza de nada ou do que fazer daqui para a frente? Essa é a triste imagem que tenho dela. É a mesma sensação que tenho em relação a Duncan, um cara frustrado por ter se enganado com a mulher com quem viveu durante tanto tempo: no fundo ela não era fanático como ele; será que ele encontraria outra companheira que pudesse compartilhar da mesma paixão?
No meio de tanta insegurança e imaturidade, parece que são pessoas no auge dos seus vinte anos. Ledo engano: eles já estão quase nos seus quarenta. A vida pelo visto não ofereceu nada de importante para eles, apenas frustrações e fracassos. O que dizer então de Tucker Crowe, cujo passado foi marcado por mulheres grávidas e abandonadas, filhos que ainda não conhecem o pai (outros já tiveram a chance, mesmo assim não fizeram questão de perpetuar a relação), uma carreira artística afundada pelo ócio – além de problemas com álcool, claro – e completa falta de perspectiva quanto ao seu futuro e do único filho presente em sua vida: Jackson, de apenas sete anos.
Os personagens, até então longe um do outro em momentos paralelos, reatam suas histórias em encontros um tanto inusitados e, como sempre, embaraçosos. Como disse no início, o desfecho não foi claro, ficou a cargo do leitor e sua imaginação para contar o final de cada um. Não sei o que Nick Hornby quis mostrar com esses exemplos de losers (outra palavra que infelizmente não tem o mesmo efeito quando traduzida), cujas experiências não acrescentam em nada na vida dos outros.
Tags: annie, duncan, jackson, julie naked, juliet, nick hornby, tucker crowe -
03/11/2009Livro
“Memórias de Minhas Putas Tristes”, do escritor colombiano Gabriel García Márquez, narra os pensamentos e lembranças de um homem prestes a completar noventa anos. Para comemorar o aniversário, ele pede para sua amiga cafetina uma virgem como presente. Como a própria dona do bordel disse, virgem hoje em dia só existe no signo. Com muito custo, eis que ela consegue uma menina de quatorze anos. Que fique bem claro que, ao ler essa obra, a indignação deve ser deixada de lado. Os próprios personagens têm ciência de isso ou aquilo não é correto, entretanto eles não se deixam vencer pela hipocrisia. O título, aliás, é uma prova de que o conto não se intimida com as proibições da sociedade. O protagonista da história já diz logo de cara: sempre pagou todas as mulheres com quem dormiu, e as que não precisou fez questão de dar um trocado como forma de agradecimento.
Gabriel escreveu em 2004, mas a história parece ser contada muito antes disso. Os indícios de que um novo século começou são ilustrados apenas pelo ar condicionado e, talvez, a reforma do prédio onde o velho trabalha como colunista para o principal jornal da região. Sua casa, aliás, é um exemplo do passado estacionado no presente, a não ser pelo telefone (apesar de sua descrição não nos permitir dizer se é ou não um aparelho moderno) que, nas horas de concentração, fica fora do gancho para manter o silêncio e a paz da casa.
Ah, a juventude. Mesmo que o corpo padeça da velhice, o espírito pode-se manter jovem a ponto de não perceber os anos se sobrepondo como fardo nas costas. Foi assim que interpretei essa história tão curta – cento e vinte e algumas páginas -, tão bem traduzida (temos de considerar, claro, que a tradução nunca será fiel à escrita original, porém algumas edições falham grotescamente com a falta de conhecimento do idioma) e dotada de tanta simplicidade.
Tags: gabriel garcía márquez, memórias de minhas putas tristes -
Choke
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26/10/2009Livro
O primeiro capítulo dá o primeiro aviso: essa história não é a de um herói, é sobre um loser total. Mesmo assim, a tentação escapa junto com a curiosidade e você já se vê lendo os próximos capítulos. Sei que os livros de Chuck Palahniuk não são nada convencionais – já até criaram um termo para seus escritos: ficção transgressional americana. Todos os seus personagens são retratados da pior maneira possível, tanto pessoalmente como profissionalmente (isso quando têm alguma profissão a qual pode ser considerada ofício), o que faz com que suas histórias se tornem bizarras e absurdas.Esse ainda é o segundo livro que leio de Palahniuk – Snuff foi a estreia -, entretanto já é possível traçar algumas características de como ele desenvolve suas histórias. Choke (traduzido como “No Sufoco” para as edições brasileiras) começa de repente, descrevendo aos poucos, porém sem muitos detalhes e explicações, o lugar onde acontecem os encontros de viciados em sexo, denominado apenas e igreja. Victor Mancini, personagem central da história, é um deles. Mas ele não vai para lá com o objetivo de se ajudar com as terapias, ele simplesmente se conforma e gosta da ideia de ser um viciado em sexo. Nico às quartas, Tanya às sextas e Leeza aos domingos.
Victor trabalha em uma espécie de fazenda ambientada no século XVIII e cada funcionário possui seu personagem, o qual deve ser interpretado fielmente, inclusive no figurino. Os juízes, que na verdade são os chefes, penalizam seus subordinados caso identifiquem ou presenciem qualquer tipo de delito (levar comida escondido, por exemplo), contudo muitos deles conseguem burlar o regulamento interno para consumirem entorpecentes e outros itens ilegais. Nessa fazenda, os visitantes se divertem e tiram todas as fotos que podem. Denny é o amigo inseparável de Victor, tão ou mais lunático quanto seu colega, só diz besteiras e assuntos desinteressantes, para não falar sem sentido.
Mancini poderia muito bem ter tido um futuro melhor se não tivesse largado sua faculdade de medicina. Seus comentários adicionais sobre doenças, diagnósticos e suas possíveis causas parecem tão verídicos que até eu quase acreditei. Não se pode dar muito crédito para quem cursou até o segundo ano, ainda mais se tratanto de um personagem como esse. Talvez não tenha prosseguido por causa de sua mãe Ida Mancini, doente do mal de Alzheimer há anos, cujos custos de tratamento e internação estão todos sob a responsabilidade do filho. A infância de Victor foi conturbada ao lado de sua mãe, mas o que um garoto inocente – estou sendo bonzinho, pois no livro ele é xingado constantemente – poderia fazer frente ao comportamento desequilibrado de um adulto que deseja promover o caos urbano e destituir a moral da sociedade? Para se ter uma ideia, trocar embalagens de tintura de cabelo e falsificar cupons promocionais de lanchonete para serem distribuídos na rua são alguns dos exemplos mais leves que Ida se atreve a fazer durante os capítulos que relembram os momentos entre mãe e filho. Paige Marshall, a médica responsável pela mãe de Victor, insiste no tratamento contínuo de sua paciente, desafiando sempre a teimosia do filho.
Para arcar com as despesas da mãe, Victor se aproveita da bondade dos outros. Seguindo o pensamento de que toda pessoa que salva sua vida se sente responsável por tal ato de heroísmo, Mancini frequenta restaurantes – devidamente listados e posteriormente riscados para evitar que os clientes ou os funcionários o reconheçam, salvo quando algum garçom aceita uma gorjeta – com o intuito de se engasgar e esperar que alguém o ajude para não morrer sufocado; daí o título do livro. Após a boa ação ter sido realizada, Victor começa a enviar seus cartões de agradecimento e também cartas solicitando ajuda financeira para os bons samaritanos que se sensibilizaram com a falsa vítima.
Com tantos cenários sendo construídos ao mesmo tempo, demora um certo tempo para se habituar com cada um deles e, também, entender o que se passa realmente naquele momento. Essa é a principal característica de Chuck a qual percebi de imediato: a história não se revela de uma vez, senão ela perde a graça quando chegar ao final. Por isso, se você começar a ler qualquer livro dele – tenho certeza que todos os outros mantém a mesma fórmula -, não se assuste e muito menos desanime com as primeiras páginas. Quanto à Choke, não esperava um final eletrizante, pois o próprio personagem não me dava esperança alguma. Victor é um homem fracassado e acomodado, que vive tentando provar que não precisa depender de ninguém, mas que no final ele mesmo se dá conta de que depende de todos (não é à toa que precisa das mulheres para sustentar seu vício e, de certa forma, sempre foi dependente de sua mãe, por mais desestabilizada que ela tenha sido no passado e por mais debilitada que ela esteja no presente). Não fiquei também com dó ou compadecido pelo estado de saúde precário de Ida; mesmo sendo louca e não ter culpa de ser abatida por tal doença (infelizmente diagnosticada muito tarde), ela tinha sim uma maldade plenamente consciente embutida em suas ações do dia-a-dia.
Algumas cenas, entretanto, poderiam ter sido poupadas para o leitor, de tão absurdas e sem sentido que são. De um capítulo para o outro, Denny começa um novo vício: colecionar pedras. Todos os dias começa a levar pedras para a casa da mãe de Victor. Objetivo? Nenhum: o que importa é o processo de colecionar pedras. Outros momentos um pouco mais perturbadores, como por exemplo o fetiche de um mulher em ser estuprada por Victor, também são desnecessários. Nessa cena, por sinal, o que mais espantou não foi o fato de simularem um estupro (fetiches existem e, pelo significado da própria palavra, são naturalmente incompreendidos) e sim os brinquedos que foram utilizados no corpo dele como parte da brincadeira.
A obra foi adaptada para o cinema ano passado, sob a direção do ator Clark Gregg (aqui no Brasil foi direto para DVD). Agora que finalizei a leitura, vou me apressar para assistir logo ao filme. Já sei, pelo menos, que foi muito bem fiel ao livro.
Tags: choke, chuck palahniuk, denny, ficção transgressional americana, ida mancini, no sufoco, paige marshall, snuff, victor mancini -
13/10/2009Livro
Posso dizer que depois de “Dearly Devoted Dexter” (só agora lançaram a versão nacional, que atraso!), “Dexter By Design” está entre os meus prediletos, mesmo que não tenham lá tantos títulos assim no portifólio de Jeff Lindsay.Dexter está em um marasmo só: sua lua-de-mel com Rita em Paris não está nada animadora, tendo que fingir ao máximo sua alegria com os franceses. A história, claro, mesmo longe de Miami, não poderia começar mais bizarra. O casal, abordado por uma mulher que não lhe cabia mais piercings na boca, recebe um panfleto de uma exposição de arte com o tema de Réalité. Nela, as pessoas eram guiadas por um vídeo com sequência de fotos mostrando uma mulher -- se for muito sensível ou tiver nojo, pule para o próximo parágrafo -- decepando a própria perna com uma serra de mesa. Logo o companheiro inseparável de Dexter, Dark Passenger, se anima e dá seus assobios, antecipando momentos de admiração pela veracidade das imagens que Rita e o resto do público negavam em acreditar: a mesma mulher que serrilhou parte do seu corpo aparece ao vivo e a cores logo após a apresentação do vídeo.
Pode parecer mais do que esquisito ou de mau gosto a premissa do livro -- algo como para chocar seus leitores sem necessidade -, porém devemos levar em conta que o personagem principal é um serial killer esquartejador de assassinos (de acordo com o código de Harry, senão ele mataria quando e quem ficasse com vontade). Com isso, não é de se espantar que o próximo inimigo de Dexter seja um tanto extravagante. De volta à Miami e à rotina de seu trabalho, Dexter se depara com uma cena incomum: os corpos de dois turistas são encontrados, ambos com uma máscara sorridente de plástico aparentemente grudada com cola no rosto. Até aí nada de anormal, se não fosse pelo fato de o assassino ter aberto a barriga de cada vítima, removido todos os órgãos com cuidado (o qué um bom começo, de acordo com Dexter) e preenchido o espaço com cesta de frutas tropicais, par de óculos, protetor solar, equipamento de mergulho, repelente e um pequeno prato de pasteles. Uma verdadeira obra de arte.
Nem preciso dizer que não é o único caso desse assassino que, a princípio, tem como objetivo prejudicar o turismo local. Outros corpos são encontrados devidamente ornamentados com o mais refinado gosto artístico e contemporâneo. Descobrir, aliás, quem é o assassino é o que menos importa na história (na verdade ele não demora muito para ser revelado); o mais legal e angustiante é ver que Dexter mais uma vez se torna displicente com seu hobby. Devido a um incidente com sua irmã Debra, Morgan se guia por impulsos involuntários -- aqui eu me pergunto se ele realmente não tem sentimentos, como sempre enfatizou desde o primeiro livro -- e comete sua primeira imprudência. Sim, a primeira que desencadeia alguns outros deslizes, o que obviamente chama a atenção de ninguém mais do que o FBI. Se não bastasse a vigilância constante de Doakes, mesmo com sua limitação física e verbal, um outro personagem aparece para atrapalhar os planos de disfarce de Dexter: Coulter, o novo companheiro de investigação de sua irmã. De quebra, ele ainda tem de conciliar sua vida de recém-casado e lidar com as preocupações superficiais de Rita como mãe. Agora oficialmente como pai, mesmo que seja o segundo, de Astor e Cody, Dexter tenta dar continuidade ao treinamento iniciado em “Dexter In The Dark” para seus pupilos.
O final me pareceu muito repentino, resolvido de uma maneira rápida e sem muitas complicações. Mesmo com muitos pontos para acertar, Lindsay consegue se sobressair sem pecar com os detalhes -- já deu para perceber que ele não é muito atento, não por descuido, mas para dar vazão mais fácil ao enredo. As desconfianças que nasceram em vários personagens em torno da verdadeira identidade de Dexter é que não me convenceram muito: deu a impressão de que as pessoas são ligeiramente inocentes a ponto de acreditar no que o nosso adorável assassino diz ao tentar se justificar -- muitas das vezes sem sucesso. Pensando por outro lado, se essa desconfiança toda vem à tona e faz com que a máscara de bom menino caia sem rodeios, não há mais sentido em continuar com a série, seja nos livros ou na própria TV.
Agora teremos de esperar até 2011 para a próxima edição: “Dexter Is Delicious”, cujo tema central será sobre canibalismo:
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01/10/2009LivroApesar de não ter apreciado muito o último livro do CSI que li, dessa vez foi o contrário: pelo menos até agora foi o melhor roteiro escrito especialmente para as páginas de pocket book. O autor de “CSI: Cold Burn” (depois fui ver que já existe versão nacional: “Morte No Gelo”), Max Allan Collins, é o veterano e, talvez, o mais querido para escrever as adaptações da equipe de Las Vegas. Desde a primeira edição “Double Dealer”, lançado em 2001 – esse eu já li, por sinal, apesar de não lembrar muito da história -, Max coleciona mais seis títulos: “Sin City”, “Body Of Evidence”, “Grave Matters”, “Biding Ties”, “Killing Game” e “Snake Eyes” – outro também o qual não me recordo plenamente da trama…
Nessa obra, Max divide os CSIs em duas histórias, alternando os capítulos para desenvolver progressivamente cada uma delas, assim como ele fez nos dois volumes que citei ter lido. Sarah e Grissom partem para uma conferência de CSIs em New Humburg, NY, na qual serão palestrantes. O clima já prediz o oposto do que o casal está acostumado no deserto: muito frio e neve (também era de esperar com o título do livro), hospedados em um hotel com vários prédios de épocas antigas. Na cidade iluminada pelos neons dos cassinos, Warrick, Nick e Catherine se deparam, a princípio, com um caso atípico: um corpo é encontrado congelado perto do lago de um parque local frequentado por muitos turistas – sim, o clima também está com temperaturas baixas. Uma mulher nua, sem lesões aparentes ou com indícios de estupro, sem documento ou qualquer rastro de sangue ao redor. Suicídio? Morta no próprio parque ou o corpo foi depositado lá propositalmente? Muitas dúvidas e perguntas surgem simultaneamente para prolongar o turno dos CSIs e tornar a vida deles muito complicada.Em New York, Grissom e Sarah enfrentam muito mais do que uma tempestade violenta de neve. Enquanto passeiam entre as árvores que cercam o hotel, os dois CSIs se assustam com dois tiros repentinos bem próximos deles. Apesar do instinto de se proteger, Gil não hesita e corre para ver o que aconteceu – Sarah, por outro lado, tenta convencer seu parceiro e chefe a não se precipitar, já que eles não estão providos de qualquer arma e, principalmente, não estão em sua jurisdição. Um cheiro familiar se infiltra aos poucos pelo olfato do dueto, e não demora muito para localizar a origem: um corpo está em chamas da cabeça ao peito. Dado o susto e, claro, depois de terem jogado o máximo de neve possível para cessar o fogo, aparecem à cena do crime outros dois personagens (antes apresentados na chegada): o CSI canadense que também veio participar da conferência – na verdade, ele foi o único presente – e o gerente responsável pelo hotel. Após muita discussão, a equipe recém-formada monta um esquema de guarda para preservar a cena do crime de possíveis predadores (sem excluir o próprio assassino). Devido ao tempo nada favorável, as estradas foram bloqueadas pela neve em excesso e a comunicação por telefone fica temporariamente indisponível; isso significa que só daqui a dois ou três dias a polícia poderá chegar ao lugar para dar prosseguimento no caso e na investigação. E mais: todos são suspeitos, desde o CSI canadense até o último funcionário. Ninguém consegue sair, ninguém consegue chegar. O que eles farão com o corpo, mesmo que a neve preserve as evidências? Como registrar as trilhas de pegadas facilmente desintegradas na neve? Quem é a vítima que agora será mais difícil de reconhecer por causa do fogo?
Collins não se prende muito a termos técnicos e químicos que estamos tão acostumados a ver na TV, exceto apenas os já empregados pelo próprio time de investigação: OD (overdose), ID (identificar), John Doe (corpo não identificado), AFIS (Automatic Fingerprint Identification System), entre tantos outros. Max faz até uma citação à Agatha Christie através de dois livros que Sarah leu durante sua viagem até à conferência. A própria situação em que eles se encontram no meio da neve remete às histórias da Rainha do Crime: presos em um lugar afastado, cercados por desconhecidos e sem os aparatos tecnológicos para processar alguma pista. Não tem como não lembrar da simpática Miss Marple ou do detetive belga mais metido do universo Hercule Poirot.
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21/09/2009LivroÀs vezes me dá vontade de ler o livro que inspirou tal filme. Foi o caso, por exemplo, de “Foi Apenas Um Sonho”, película baseada na obra de Richard Yates. “Revolutionary Road” foi muito bem adaptado paras as telas de cinema, o que se torna um desafio para eu redigir essa resenha. Creio que a maior diferença – e a melhor – entre um livro e um filme são os detalhes que não podem (pelo menos integralmente) ser traduzidos em ações: os pensamentos dos personagens. Seus ideais, seus sonhos e suas frustrações são belamente alinhados nesse drama que exaspera sentimentos adversos e conflitos do começo ao fim.
Ficava na dúvida de que lado eu ficava: ao lado de April Wheeler, jovem sonhadora em ser uma atriz reconhecida, apesar de participar de um elenco de atores amadores e frustrados, e que transmite a maior parte da história insatisfação com a vida de dona-de-casa e mãe de dois filhos; ao lado de Frank Wheeler, rapaz cuja vida profissional se resume a um dia-a-dia monótono (nem no livro você consegue visualizar realmente qual é a função dele, a não ser que é um departamento de vendas recheado de várias cabines envidraçadas com um ditafone ao lado).No começo pensei como April era petulante e fria com o marido; não sabia enxergar o mundo à sua volta e como ele se esforçava para dar toda a atenção do mundo para ela. Entretanto, a vida de mãe pareceu ter chegado ao limite com seus dois filhos pequenos, sem perspectiva de crescer no que for – ser mãe provavelmente não era o objetivo dela. Seu marido só se preocupa em abrir o jornal e ascender um cigarro quando chega em casa, além de recepcionar a esposa com um beijo de boa noite enquanto espera o jantar ficar pronto.
Frank não se conforma com – mais do que quando não entende – o comportamento de sua esposa. Sua carreira de atriz não é nada promissora – ambos têm plena ciência disso -, mas isso não é motivo para ela ficar resistente a tudo e a todos. Talvez sua infância difícil tenha amargurado um pouco seu coração; talvez isso tenha sido parte da idéia dela em querer abortar o primeiro filho. Como ela pôde pensar em tal monstruosidade? Foi uma semente dele, mais uma prova de sua masculinidade e também de constituir (e preservar, claro) uma família. Seu medo de correr qualquer risco o faz um homem covarde e completamente acomodado em suas funções rotineiras: trabalho, casa e visita de casais vizinhos (dois somente, por sinal, os Campbells e os Givings, cujas vidas e passados são brevemente apresentados ao leitor).
A grande e provável guinada da vida do casal Wheeler se dá com o súbito anúncio dos planos de April em viajar para a Europa. O preconceito e o individualismo superam essa parte da história: April não vê problema em trabalhar e, inclusive, sustentar as horas de lazer e conhecimento do marido (sim, Frank não precisaria trabalhar e, de sobra, teriam como contratar uma babá para as crianças). No ponto de vista de Frank, a idéia pareceu imatura, ainda mais proveniente de uma reportagem falando sobre Paris. Todos os documentos necessários e seus processos burocráticos foram cuidadosamente administrados por ela com muita disposição. Ela até conseguiu convencer o marido a aceitar a largar do emprego e perder o receio de contar a novidade para seus colegas de trabalho (principalmente seu chefe) e amigos. Porém, como havia dito antes, a covardia o resguarda de tal aventura. E a sorte sentou ao lado de Frank: um acontecimento pega o casal Wheeler de surpresa, para descontentamento de April.
Daí em diante, incerteza, nervosismo, tristeza, decepção e muitos outros sentimentos negativos se acumulam e viram uma bola de neve. Eles tentam manter o controle, mas parece impossível; um não colabora com o outro, mesmo quando ambos acham que estão ajudando de alguma forma em evitar mais discussões desnecessárias e diálogos cansativos. É difícil imaginar um final feliz para eles. Também é difícil dizer quem está certo e quem está errado. E quem é o senhor da razão e da verdade nesse mundo? Cada um vive à luz de sua experiência e agem na maneira como acham melhor. Nem sempre as reações são aceitas – e aqui nenhuma reação foi benéfica para ambos – e as brigas seguem desenfreadamente ladeira abaixo.
Não posso afirmar que o autor tem preferências por esse estilo de drama e finais infelizes. Sei que ele tem outros títulos – que, pelas sinopses que li, aparentemente possuem o mesmo tipo de enredo e cenário -, porém não tive a oportunidade de experimentá-los. Até me agradam esses gêneros literários, e a maneira como Yates escreve, sempre enfeitado com uma variedade de adjetivos e cenas que poderiam acontecer entre muitos parênteses, me cativou mais ainda.
Tags: april wheeler, foi apenas um sonho, frank wheeler, givings, howards, revolutionary road, richard yates -
30/07/2009LivroSou fã do seriado CSI: Las Vegas (as versões de New York e Miami nunca me interessaram) e, por isso, leio quando posso as adaptações que fazem para os livros. Não há tantas histórias lançadas se comparado com o número de temporadas e episódios, contudo acho legal ver os personagens da série encubados em uma trama impressa. Os escritores não variam muito, na sua maioria especialistas no ramo, ex-policiais, ex-delegados e outros cargos relacionados à área de investigação. Apesar do expertise dos autores, o primeiro título que li, “Snake Eyes”, não se aprofundou tanto em detalhes mais técnicos, como partes do corpo e reações químicas – cenas que, se fossem da série, exigiriam uma posterior tradução para os leigos telespectadores como eu; na verdade, sempre acontece.
Em “In Extremis”, escrito pelo ex-xerife, ex-policial forense e ex-diretor de laboratório criminal Ken Goddard, o detalhamento de qualquer situação ou lugar me confundiu muito, me obrigando a voltar algumas páginas para entender melhor o que, como e quando os fatos aconteceram. O cenário é desafiador: no meio do deserto. Aqui já começa um obstáculo para mim, visto que tenho dificuldade para visualizar cenas de crime; falo isso por já ter lido vários romances da Agatha Christie que, por não terem um mapa ou planta, me deixavam perdido no meio do caminho (pode começar com as piadinhas). Os envolvidos na cena do crime também tornam o roteiro mais complexo: seis agentes, o motorista do caminhão e vítima principal até o momento não identificada (também pudera, com os miolos do cérebro espalhados pela cabine, ficou difícil mesmo saber reconhecê-lo), um suposto traficante latino e, por último, um atirador profissional.Goddard teve a proeza de retratar a exata localização dos suspeitos – mesmo em um lugar inóspito como o deserto de Nevada -, assim como a distância entre os personagens mais distantes. Não sou bom de medidas, então lá se vai mais um ponto contra mim: tudo em feet ou em inches, unidades as quais tive preguiça mental de calcular em metros ou centímetros – às vezes tenho a impressão de que só nós brasileiros utilizamos kilômetros e kilos, mas sei que não estamos sozinhos nessa. Se não bastasse, a direção de cada um servia como reforço para determinar o local dos personagens: em graus quando, por exemplo, alguém estava em cima de uma rocha (boulder em inglês, palavra repetida a todo momento) ou pelos pontos cardeais; me atrapalhou mais ainda… tenho um péssimo senso de direção.
Quer mais? Não se preocupe, pois detalhe é o que não falta nessa edição. Equipamentos para renderizar a cena do crime em 3D, programas de computador, métodos de processamento de testes químicos (dos mais recentes aos mais antiquados), coleta de pistas e armas de vários tipos são minuciosamente descritas ao longo das quase trezentas páginas do pocket book. Exagero? Sim. Senti que Ken quis atingir a perfeição, porém deve ter se esquecido de que seus leitores não são especializados no assunto para entender de imediato – ou pior, aguentarem – o que se passa.
Fico meio desorientado em alguns episódios da TV pela avalanche de informações que a equipe de Gil Grissom descarrega rapidamente, entretanto essa aptidão de acompanhar o ritmo deles é obtida aos poucos. Agora, ter esse mesmo compasso em um livro não gera o mesmo resultado. E não é porque eu li em inglês, o grau de dificuldade seria o mesmo se estivesse em português. No começo do livro, Brass entra em uma discussão calorosa com os dois agentes responsáveis pelo grupo envolvido no tiroteio, momento no qual surge uma sequência de respostas no estilo “bate-e-volta”, cada um deles rebatendo com argumentos para ganharem vantagem. Nesse iterim, você se sente obrigado a saber de todas as restrições de cargo, área e jurisdição da polícia de Las Vegas para seguir adiante com todas as informações fornecidas.
A frase “melhor pecar pelo excesso do que pela falta” não se aplica para esse livro. Prefiro ler uma história mais simples, displicente de termos técnicos usados nas salas de laboratórios, a uma trama complexa que demora para se desenrolar… e olha que o final não é lá tão deslumbrante para quem se esforçou tanto para chegar na solução do crime.
Tags: crime scene investigation, csi las vegas, in extremis, ken goddard



































Falou e disse