Category: Cinema e TV

Um homem sério

Quando foi lançado, “Um homem sério” até que foi elogiado. Quando chegou aqui no Brasil (pelo menos em São Paulo), o filme não durou mais do que duas semanas nos cinemas – praticamente um boicote. E só agora eu assisti.

O que eu mais gosto dos irmãos Cohen, que dirigiram o filme, é a pura ironia escondida sutilmente entre os diálogos dos personagens – e por que não na própria expressão deles -, além, claro, na condução da história. Nessa película, o tema central para reflexão é como perseverar na crença de uma força superior de acordo com dogmas estabelecidos por uma religião. Tal conflito é ilustrado pelo professor de física Larry Gopnik, casado com Judith e pai de Sarah e Danny, ambos adolescentes.

A vida aparentemente estável, e seguindo seu curso na mesma visão exata que um matemático tem do mundo, começa a desmoronar lentamente com uma sequência de eventos nada agradáveis. A insatisfação da mulher quanto ao casamento e uma repentina atitude de suborno de um aluno seu são o ponto de partida para que tudo comece a dar errado. A matemática e a física já não conseguem explicar tais pertubações na linha do tempo, então só resta recorrer ao auxílio do judaísmo. Mesmo assim, a ajuda solicitada aos rabis também se torna ineficiente. A seriedade de um homem ficou completamente abalada.

Em paralelo, as preparações do Bar Mitzvá de Danny seguem alinhadas com muita ansiedade por todos. É interessante notar que, mesmo com a vida de Larry virando de ponta-cabeça, as tradições familiares devem permanecer intactas. Em outras palavras, não importa o quanto sua família tenha se desestruturado, algo que tenha representação importante nela – aqui é a religião, mas poderia ser, por exemplo, um mero status social – precisa ser mantido para os outros.

Porém, nada disso teria graça – sim, por mais que seja um drama, não deixa de ser engraçado – se não tivessem as pinceladas de humor negro de Joel e Ethan Cohen que eu tanto admiro desde os seus primeiros filmes, todas elas aplicadas com sabedoria em diversas cenas estáticas e duradouras.

Precisamos falar sobre o Kevin, o filme

Precisamos falar sobre o Kevin

Demorou, mas finalmente assisti à versão cinematográfica de Precisamos falar sobre o Kevin. Por incrível que pareça, o filme não me perturbou em praticamente nenhuma das cenas. Talvez o impacto maior tenha sido justamente nas que me fizeram lembrar de outros momentos não incluídos na película.

Ao contrário do livro, o filme quase não possui diálogos, e mesmo assim ele conseguiu captar a mesma tensão (ou seria aflição?) sentida na obra literária. O mais interessante é que, mesmo excluindo a característica vital da leitura, em que a protagonista expõe todos os seus pontos de vista e opiniões nas diversas cartas para o marido (nem teríamos como fazer tal comparação, visto que qualquer adaptação falha drasticamente esse elemento narrativo), o roteiro não perde para a história original. A forma como a história é conduzida, revezando entre presente e passado, incomoda um pouco no início, como se quisesse confundir o público de propósito – a pista da troca de épocas, no entanto, é logo descoberta pelo corte de cabelo de Eva Katchadourian -, mas é uma boa fórmula para prender lentamente a sua atenção.

Acredito que o filme tenha deslizado apenas em não ter esclarecido rapidamente o contexto de determinadas situações, mostradas através de detalhes até então insignificantes para o expectador, como os pôsteres de países com o nome de Eva que enfeitam a sala de sua agência de turismo (ela aprovando os anúncios mais parece uma agência de publicidade), as roupas de Kevin com número menor (dá a impressão de serem apenas justas) e os hematomas espalhados pelo seu rosto quando Eva vai visitá-lo na prisão (apesar de não ser difícil deduzir que tais ferimentos provêm de brigas com os demais detentos). Outros detalhes, porém, não deveriam ter sido ignorados: as idades de Kevin na fase infantil, as quais poderiam, por exemplo, dar parâmetro para as suas birras insuportáveis (ele já tem seis anos quando o mostra usando fraldas), assim como o nervosismo de Kevin no final do filme, também sem nenhuma causa aparente, tem seu motivo explicado no livro.

Eva e seu filho Kevin

A atuação de todos os atores é excepcional, principalmente a dos mirins (as expressões de repulsa e maldade chegam a desequilibrar nosso bom-senso). A seleção do elenco foi crucial para transfigurar os personagens do papel. Alguns equívocos, entretanto, batem em contradição com a versão original. O ar de derrota que Eva carrega consigo à base de muito vinho e calmantes durante o filme, ainda que seja dessa maneira como ela é retratada no livro, não chega a condizer com a sua sagacidade no livro. O que eu vi foi uma Eva frágil e medrosa, cansada de lutar pelo futuro de seu filho assassino. Quanto à gravidez indesejada de Kevin, não seria possível transferir toda a avalanche de pensamentos de Eva para as telas do cinema, logo seria muita presunção reduzir-se à ideia de que Kevin nasceu com esse perfil psicopata por causa da rejeição materna. Esse assunto, aliás, só rende boas discussões apenas com o livro (se você ainda tiver estômago para enfrentar as quase quatrocentas páginas escritas por Lionel Shriver). No geral, o filme reuniu os “melhores momentos” do livro e conseguiu costurá-los de modo que fizesse jus à história original, ainda que muito editado, adicionando pitadas para lá de aflitivas.

Shame

Shame
A imagem acima de Michael Fassbender, que interpreta Brandon Sullivan e seu vício em sexo, descreve perfeitamente o enredo do filme Shame, dirigido por Steve McQueen. Por se tratar de sexo, entretanto, é automático o pensamento de que a história toda se resuma a cenas incontroláveis de erotismo. Longe disso.

A privacidade é a palavra-chave da trama. A boa vida que Brandon leva, tanto no emprego quanto pessoalmente, lembra a perfeição que testemunhamos em “Psicopata Americano”: um apartamento espaçoso, limpo e branco, a medida do possível, para que Sullivan mantenha em segredo, com pleno conforto e comodidade, suas taras sexuais (assim como Patrick Bateman guardava sua identidade assassina). Toda essa tranquilidade, entretanto, desmoronou com a chegada inesperada de sua irmã Sissy – nem tão inesperada assim, visto que desde o começo do filme ela insiste em deixar vários recados na secretária eletrônica enquanto ele se diverte -, que inadvertivamente se apodera do seu apartamento.

A maneira como a história se desenvolve é a passos longos e, em alguns momentos, bem cansativos. Cenas que parecem durar dez ou quinze minutos (talvez demorem mais) exageram ao tentar justificar o estilo de vida de Sullivan, dando detalhes picados de sua rotina diária: as mulheres que ele paga para fazer sexo, a masturbação no banheiro, as olhadas tortas e desconfiadas dos colegas de trabalho (descobrimos a razão de tanta suspeita mais adiante, quando o computador dele volta do suporte). Mesmo quando Sissy chega para quebrar essa rotina mecânica, os passos continuam rastejantes, dando tanta ênfase nela quanto no irmão. Exemplo claro disso é quando Sissy aparece cantando no bar em que Brandon e seu chefe foram convidados para assistir: uma cena desnecessária que só dá a impressão de preencher alguma lacuna esquecida do roteiro.

Ainda que o final seja arrematado por uma tensão fruto do desentendimento dos irmãos, a lentidão é quem redige o movimento. Essa tensão, aliás, é finalizada por uma consequência um tanto cliché e até moralista, como se o que culminou em tantos acontecimentos dolorosos fosse culpa de problemas de relacionamento entre os personagens – problemas esses não mostrados a fundo,  a principal causa de tantas discussões. Na cena da mulher no metrô, onde a câmera faz questão de mostrar a aliança reluzente em seu dedo, dá a entender que Brandon tomou outro rumo só pelo seu olhar de apreensão. Todo seu prazer sexual é expurgado em uma única cena de arrependimento, fazendo com que o tema principal do filme, seu vício em sexo atrelado à sua privacidade, pareça uma fase passageira e sem importância.

Tão Forte e Tão Perto

Extremely Loud and Incredibly Close (ou Tão Forte e Tão Perto)

Já faz um bom tempo que eu li “Extremely Loud & Incredibly Close” (“Extremamente Alto & Incrivelmente Perto” na edição brasileira), logo minha memória fraca guardou partes do livro que, por mais simples ou poéticas que sejam, ficaram registradas como vitais às características do personagem principal Oskar, menino afetado pela Síndrome de Asperger.

Esses detalhes acolhidos de maneira tão emotiva por mim infelizmente não foram selecionadas na adaptação para as telas do cinema. Até na tradução do título fizeram questão – esses brasileiros que se acham criativos! – de mudarem para “Tão Forte e Tão Perto”. Meu desapontamento em relação ao filme é muito particular, porém é visível que muito se perdeu da história até chegar no filme.

Eu posso citar apenas dois exemplos exonerados de qualquer importância para quem não leu o romance de Jonathan Safran Foer: a expressão heavy boots, usada por Oskar quando estava entristecido, e o amigo de sua mãe que o fazia ficar com muitos ciúmes (até nós mesmos ficaríamos, dado o fato de que a tragédia ainda era recente para a família), foram praticamente ignoradas no filme – o amigo da mãe sequer existe. As pombas brancas atravessando o céu como que um momento de nirvana também passaram literalmente em branco – desculpem o trocadilho infame. A cena do corpo caindo do World Trade Center logo no começo do filme inverte o enredo do livro, retratada em várias e sofridas páginas, para que o próprio leitor se encorajasse a folhea-las para dar o efeito de uma animação funesta.

A interpretação do garoto também deixou a desejar bastante. Levando em consideração a condição mental de Oskar, justificada com displicência no filme como “não conclusiva, de acordo com o resultado de todos os exames realizados”, o que vemos atuando é um menino completamente mimado pelo pai e irritado com minúsculos aborrecimentos do dia-a-dia. Apesar de não ser justo, faço a comparação com Elijah Wood em “Everything Is Illuminated”, também obra de Safran (“Tudo Se Ilumina” para os livros, “Uma Vida Iluminada” para os cinemas): é notável a semelhança do personagem do livro com o ator – ele realmente soube incorporar o papel do garoto estranho que colecionava tudo que vi à sua frente.

Mesmo assim, o filme captou parte do peso sentimental da versão literária. A mensagem transmitida também é válida: em meio a tanto sofrimento, não nos damos conta de que há muito mais pessoas ao nosso redor com o sofrimento igual, tão maior quanto ou muito mais do que o nosso, bastando a nós ter complacência pelo próximo.

Drive: o filme

Drive: o filme

Esqueça qualquer relação com o livro. Claro que o roteiro adaptado de Hossein Amini honrou os personagens, assim como algumas cenas – e alguns poucos diálogos – do romance, porém o filme mudou o enredo da história e, consequentemente, a trajetória da maioria dos envolvidos na trama. Apenas para quem leu a versão original de James Sallis notará que, inclusive, o desfecho dos personagens foram trocados (como no caso dos capangas Bernie e Nino). Aqui já não se faz mais menção ao passado de Driver, papel conduzido com muito enigma por Ryan Gosling (sempre na companhia de sua jaqueta branca com o escorpião desenhado nas costas). De onde ele veio, o que ele fez para chegar até aqui, nada é esclarecido – com exceção de que ele sempre trabalhou como mecânico, complemento inexistente no romance, com a ajuda do dono da oficina, Shannon.

Mas deixemos as comparações com o livro de lado. Drive em si é bom, entretanto, o motivo principal que desencadeou a série de perseguições e corridas de carro é demasiado piegas: o início de um relacionamento afetuoso entre Driver e sua vizinha Irina, cujo marido está na prisão e sem esperanças de que retorne ao recanto familiar, é ameaçado por trabalhos não cumpridos por Standard, o cônjuge. A frieza e independência com que Driver é retratado no livro infelizmente são desfragmentadas por essa irritante obsessão em proteger Irina e o filho Benicio. Se o diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn tivesse optado por seguir um pouco à risca a narrativa do escritor, certamente o filme não teria caído nesse tipo fatídico de cliché.

Contudo, a violência é o fator que mais se manteve fiel à obra de Sallis, sendo que algumas cenas conseguem arrancar risadas por beirarem o exagero – como a do elevador, por exemplo (abro um parêntese inútil: o primeiro filme que pipocou na memória, como que uma referência imediata, foi “Marcas da Violência”, de David Cronenberg; nessa película também mostra uma violência em detalhes e sem cerimônias). Outro elemento interessante no filme, em meio a tantas sequências de velocidade nas ruas de Los Angeles, é exatamente o contrário: pausas agonizantes em momentos decisivos – até a trilha sonora se ausenta para criar a atmosfera de tensão.

Por falar em trilha sonora, o synthpop e o techno estranhamente combinaram com o ambiente solitário do filme e, por outro lado, deixaram o clima mais vintage do que o esperado (até agora me pergunto por que a fonte Mistral, tão usada em cartazes amadores criados em editores de texto, foi escolhida para os créditos do filme).

O Artista

O Artista

A sétima arte tem deixado a desejar de uns anos para cá. Mesmo abrindo exceção para alguns pouquíssimos filmes, a criatividade está definhando na indústria cinematográfica, dando lugar a inúmeras adaptações de histórias em quadrinhos e livros, sejam eles bons ou ruins.

O Artista conseguiu de alguma maneira sair dessa monotonia  que assola os estúdios. É um filme simples, como todos sabem: filmado em preto e branco e quase silencioso (não podemos esquecer da trilha sonora, essencial para dar o clima na maioria das cenas). Foi essa simplicidade que surpreendeu a todos e até rendeu indicações ao Oscar.

Uns podem virar para mim e contestar: não é criatividade fazer um filme mudo, preto e branco! Claro que não é, mas foi criativo da parte do diretor fugir dos estrelismos insossos de remakes e adaptações e desafiar a nossa geração (e reviver as memórias das gerações mais antigas) a assistir uma película produzida com recursos tão primórdios.

A história não é excepcional, mas tem lá suas sacadas geniais durante alguns momentos, a começar pelo próprio som. A trama gira em torno exatamente da transição do filme mudo para o falado, uma ideia tão simples e ao mesmo tempo… tão criativa. Mesmo para quem nunca viu um filme dessa época (nem Charles Chaplin), é possível imaginar a rotina de Hollywoodland, assim como do público, apenas assistindo O Artista. É um filme mudo, preto e branco que mostra os bastidores de vários filmes do mesmo gênero.

Torço para que ganhe a maioria – por que não todas – das estatuetas da Academia, mas fiquei muito decepcionado ao saber que o ator principal do filme não foi convidado para a premiação.

Inquietos

Inquietos

Não sei até que ponto é aceitável misturar ficção com realidade ou, ainda, fazer com que a ficção seja, mesmo que levemente, uma distorção da realidade e, por conta disso, acabe se tornando uma desculpa justificável. Pode ser que não tenha me expressado muito bem ao começar a resenha de “Inquietos” (“Restless”), novo filme do diretor Gus Van Sant, mas vou tentar dar um pouco de luz ao meu raciocínio até o final.

A história envolve um casal de jovens que se conheceram em um funeral. O garoto Enoch estava lá por puro hobby (referências à Clube da Luta são inevitáveis quando lembramos das visitas ao grupos de auto-ajuda); a garota Annabel estava lá porque conhecia o falecido. Minha irritação com o filme cria uma raiz já desde o início: a infantilidade com que o relacionamento do casal é alimentado durante a trama toda, como se eles vivessem no mundo de Alice – ou mesmo no da Pollyanna, já que a morte é encarada com muita tranquilidade pelos protagonistas. Tal comportamento consequentemente daria abertura a diálogos frívolos, típicos de adolescentes – se eles realmente fossem adolescentes.

Então entra em cena o amigo fantasma de Enoch, um militar japonês morto na Segunda Guerra Mundial, fruto de seu papel como piloto kamikaze. Essa é a parte em que a ficção interfere na realidade e é permitida sem preconceitos. Basta dar asas à sua criatividade e acompanhar a vida paralela do espírito – por que não acreditar que ele é realmente um espectro e não simplesmente um amigo imaginário de Enoch?

Annabel, por sua vez, diante das notícias nada animadoras de seus recentes exames, não se deixa abalar nem um pouco e acha que sua irmã se preocupa demais. Eu também me preocuparia bastante diante das condições limitadíssimas em que Annabel se encontra, porém esse “mero detalhe” passa despercebido justamente para dar ênfase nos ótimos momentos que ela precisa aproveitar com Enoch. Estar debilitada por causa de uma doença que pode ser avassaladora e mesmo assim ter disposição para fazer tudo o que ela fez até o final do filme pareceu ser uma desculpa plausível. É aí que o filme peca drasticamente em querer mostrar o lado emotivo do casal: deixa de lado uma parte da realidade a qual não pode ser levada como ficção.

A preocupação estampada nos parentes de Enoch e Annabel, a única realidade aceitável no filme, é rapidamente ofuscada pelo amor incondicional criado pelo casal romântico. Nenhum deles precisa de cuidados, muito menos de conselhos, afinal já é suficiente engolir que eles formam um casal feliz e apaixonado. Até a morte, tema central da trajetória, ironicamente não ganha força no filme. Invadir necrotérios e brincar de morrer são cenas vistas como simplórias e engraçadas. Mesmo com tantas falhas e distorções, o filme conseguiu me comover um pouco com seu final, também simplório e engraçado – o que, ironicamente, fez com que algumas pessoas chorassem.

A Pele Que Habito

A pele que habito

Quando o trailer foi divulgado, deu para entender quase nada (ou nada mesmo) do que se tratava. Cenas aleatórias de uma mulher vestida de preto e uma máscara branca fugindo do ator principal, Antonio Banderas, que vive um cirurgião plástico, cria uma expectativa estranha quanto ao novo filme de Pedro Almodóvar. Aliás, o que esperar de seu próximo filme?

O diretor gosta de mostrar o prazer explícito em cenas de sexo, sem pudor, em muitas de suas películas. Em “A Pele Que Habito”, ele precisa explorar ao máximo cada detalhe do corpo dos personagens – a pele não só habita o título do filme como é o tema principal. Pelo menos é o que acontece com a protagonista do filme, Elena Anaya, para justificar as várias consequências provenientes do experimento feito nela pelo cirurgião plástico.

Como de costume, as mesmas cenas de sexo são mostradas com um ar hilário – os jovens se divertindo no jardim da mansão – e, mesmo nas partes mais dramáticas, o impacto parece não ter muito efeito. As cores vibrantes e coloridas se acentuam entre os personagens, como se fosse para isolá-los em seus momentos mais angustiantes, à medida que o suspense vai progredindo: o sofá verde no quarto da paciente, os círculos vermelhos espalhados pelo tapete da sala da casa, os vestidos estampados (e rasgados) são alguns exemplos.

Personagens e histórias vão se conectando ao longo da trama, sempre com a orientação de tempo concedida pelo roteiro. O suspense fica por conta das descobertas que o público vai tendo em meio a tantas dúvidas e especulações. A maneira como o filme encerra é até satisfatória, dado o fato de conseguir amarrar todas as pontas – da paciente, do cirurgião e de sua mãe, vivida pela atriz Marisa Paredes.

Ainda que a ficção atropele a ciência e incentive o expectador a acreditar em tanta bizarrice, o filme me agradou bastante. Temos de concordar que todo trabalho de Almodóvar foge do que é normal e quase sempre esbarra em situações exageradas e cômicas, por mais que ele tente equilibrar drama e suspense no mesmo espaço.

Dexter: temporada 5

ATENÇÃO: se ainda não assistiu, não se arrisque com os spoilers.

Fiquei tão empolgado quando soube da quinta temporada de Dexter que não esperava sequer ter uma faísca de desapontamento. E foi o que aconteceu.

O primeiro capítulo mostra o impacto causado pelo assassinato de Rita na vida do nosso serial killer e, por mais uns dois capítulos, o dramalhão continua. Se não bastasse agora ter que cuidar do filho recém-nascido, ainda precisa enfrentar a fúria da enteada, a qual sempre joga na cara dele ter sido o culpado pela morte de sua mãe.

A ação só começa a aparecer lá pelo quinto episódio, quando Dexter, em uma de suas aventuras noturnas, é testemunhado por uma das vítimas da sua própria vítima: Lumen. E a partir daí se inicia todo um relacionamento, ora tropeçando na amizade ora esbarrando no amor (esse e outros sentimentos os quais Dexter afirma se abster desde a primeira temporada). Julia Stiles está muito bem no seu papel, tanto que me fez acreditar piamente que ela pudesse ser a parceira ideal para Dexter em seus hobbies. Mas não foi esse o desfecho planejado pelos roteiristas.

O seriado misturou várias investigações no decorrer da trama, sem contar que o mistério do caso Trinity ficou aparentemente flutuando no ar sem solução – eles bem que tentaram emendar a história com a suspeita de Quinn sobre Dexter, mas foi em vão. Isso fez com que o roteiro tivesse buracos enormes para fechar cada um deles. No caso dos irmãos decepadores, um deles simplesmente foi esquecido; a cena do dentista encontrado ao lado da vítima “inacabada” de Dexter foi ridiculamente solucionada com uma teoria descabida de sadomasoquismo por Vincent Masuka – pior ainda ver que Debra aceitou de primeira a explicação; por fim, o principal caso da temporada também se deu por fechado pela equipe inteira de investigadores, tendo se conformado inocentemente com o desaparecimento de todos os assassinos, mesmo que a imprensa e o chefe de LaGuerta estivessem fazendo constante pressão. Depois disso, prova-se que a polícia de Miami é realmente competente no que faz.

As enrascadas em que Dexter se enfia, pelo menos nas primeiras temporadas, eram muito bem elaboradas a fim de que nosso querido assassino de assassinos conseguisse escapar com muita astúcia. Nessa, entretanto, Morgan escapa por pura sorte (leia-se: preguiça de roteirista) e não por mérito. E depois de tantos anos, será que ninguém da polícia de Miami se dá o trabalho de pensar que não é normal assassinos desaparecerem do mapa assim que eles são tidos como suspeitos? Pelo visto a vida é mais fácil nos seriados.

Outra desculpa esfarrapada dos roteiristas para descontinuar a participação de Julia Stiles no seriado: depois de ter ajudado Dexter a capturar os homens que a traumatizaram drasticamente – além, claro, dela mesma ter matado dois deles -, Lumen repentinamente se despede de Dexter para sempre. A justificativa deplorável ficou por conta do próprio Dexter: “her Dark Passenger is gone”. Também é muito fácil sair metendo a faca em quem te prejudicou para superar o trauma e, como num passe de mágica, toda aquela força obscura emana do corpo justo no último capítulo. O conceito do Dark Passenger foi subestimado pelos roteiristas a um nômade, como se fossem espíritos que pulam de encarnação em encarnação por livre e espontânea vontade. Vale lembrar: cada um tem seu Dark Passenger; ele pode até sumir temporariamente (como aconteceu no terceiro livro), mas ele sempre será seu companheiro.

Por mim, a próxima temporada deveria ser a última. Sabemos que quem manda e desmanda nas renovações são os próprios telespectadores (com exceção de algumas crises econômicas que acabam cortando a verba das produções), porém a qualidade dos roteiros consequentemente é afetada da pior maneira. Espero que não aconteça o mesmo com a criatividade de Jeff Lindsay.

Belas Artes e os cinemas esquecidos de São Paulo

Cine Belas Artes Foto: Flickr de Augusto Gomes

Fiquei impressionado, senão surpreso, ao me deparar com tanta comoção das pessoas por causa do fechamento do Belas Artes, cinema com quase setenta anos de existência. Apesar de todo o sentimentalismo envolto nessa situação, não consigo compartilhar da mesma compaixão. É um cinema de rua a menos na cidade de São Paulo, assim como foi o Comodoro, tão tradicional e antigo quanto.

Sempre brinquei que a Madonna foi culpada pelo encerramento do Comodoro: antes do incêndio que acabou de vez com a estrutura do cinema (há uns quinze anos, talvez), era o cartaz de “Evita” que resistia em ficar pendurado na entrada. E pensar que fui tantas vezes a esse e a todos os outros cinemas de rua no centro de São Paulo: Olido, Metro, Arouche, Ritz, Metrópole, Paris, Ipiranga e Marabá. A maioria deles também fechou, virou estacionamento, bingo, galeria de arte, templo religioso ou que agora só exibe filmes pornôs. E mesmo desde criança podia perceber a precariedade deles, assim como do Belas Artes, o qual deixei de freqüentar há dez anos. Mesmo com o patrocínio e uma reforma preguiçosa não me fizeram mudar de ideia: nunca mais coloquei o pé lá dentro.

Talvez a seleção de filmes em cartaz nesses cinemas não chegue perto dos que o Belas Artes até hoje possui, porém quando deixamos de lado a qualidade cinematográfica e cercamos a qualidade das próprias salas, todos ficam praticamente no mesmo patamar: completamente carentes de uma insfraestrutura que proporcione conforto e a experiência agradabilíssima de assistir a um filme na telona. Outro ponto contra esses cinemas arcaicos, claro, é o esquecimento urbano do centro de São Paulo, mas localização não é motivo para se vangloriar: Gemini, em plena Avenida Paulista, fechou as portas depois de trinta e cinco anos de funcionamento. Talvez seja sorte grande ou a dependência de uma grande empresa para manter a sobrevivência das salas de rua (duvido muito que o Espaço Unibanco ou o Cinesesc percam o investimento de seus respectivos patrocinadores).

Sinceramente, não sei o que o Belas Artes tem que os outros não conseguiram ter. O que cativou tanto seus frequentadores deveria ter sido cultivado bem antes, e não se tornar um jarro de protestos agora que anunciaram seu fim.