Zé Offline

Música. Cinema. Livros. Whatever.
  • scissors
    06/07/2010Livro

    Chuck Palahniuk chegou ao seu limite nesse livro. Seu objetivo era simples: criar histórias de horror e suspense em cima de fatos cotidianos. Ele conseguiu, mas de uma forma muito mais bizarra. Para se ter uma ideia, no lançamento, quando Palahniuk começou a ler o primeiro conto, trinta pessoas desmaiaram antes do término da leitura. Em outras ocasiões, esse número subiu para sessenta.

    Exagero? Talvez sim, porém quando eu terminei de ler, também fiquei me sentindo muito mal (quase que uma sensação de repulsa por ter conseguido chegar até o final). Chuck conseguiu criar uma coleção de estórias pesadas, mesmo tendo em mente que sua imaginação ultrapassa os princípios do absurdo e sempre esbarra em cenários sujos, grudentos e nojentos.

    “Haunted” narra a história de dezessete pessoas que aceitam o convite do até então desconhecido Mr. Whittier a embarcarem em um retiro de três meses em um lugar totalmente afastado do mundo externo. Como parte do desafio, cada um dos participantes deveria levar o essencial do essencial em apenas uma mala. Todos poderiam sobreviver a essa aventura misteriosa com a seguinte condição: escrever, escrever e escrever.

    E é exatamente assim que o livro se desenrola. Sempre com a narração de cada um dos personagens, precedido por um poema, cada conto exprime o passado sórdido banhado por assassinatos, chantagens, sabotagens e excessos, ou um simples acontecimento que marcou suas vidas (que, mesmo assim, não deixa de ter seu lado absurdo). A primeira experiência relatada, “Guts”, responsável pelos desmaios de tantas pessoas, é realmente a mais incompreensível de todas. Você não consegue acreditar como um vício pode levar alguém a quase cometer um suícidio ou, no caso desse personagem, deixar sequelas físicas até o presente momento – nem por isso, contudo, ele se arrepende do que fez.

    Assim que comecei a ler, a lembrança de “O Caso Dos Dez Negrinhos” de Agatha Christie foi imediata. O cenário antes retratado em uma ilha deserta é substituído por um antigo teatro com cara de abandonado. Um ônibus resgata um por um, dando ao leitor as primeiras e estranhas impressões a medida que Chuck descreve as vestimentas e as características corporais deles. A chegada ao lugar recluso é introduzido pelo fragilizado cadeirante Mr. Whittier, organizador do evento, e sua secretária Mrs. Clark, cuja obediência e comprometimento escondem outros objetivos.

    Uma modelo grávida, uma mulher com alergia crônica, uma reflexogista, um cozinheiro, um pintor amador, uma mulher rica que finge ser mendiga, uma freira, um homem com feições selvagens, outro homem que grava tudo que vê pela frente são só alguns exemplos que incitam o leitor a esquecer tudo o que já visto como anormal. A ambientação típica de um reality show mostra a disputa acirrada entre os participantes em ganhar o prêmio notório da fama: sair do teatro ofuscado pelas câmeras e flashes dos canais de televisão e revistas famosas. O estoque de comida não é suficiente, a energia elétrica é cortada, a água também acaba repentinamente. Mesmo dentro de um cenário tão caótico – e por que não apocalíptico? -, cada um dos personagens tenta o melhor de si para ser o grande vencedor, tentando se vangloriar em meio a tanta podridão (tanto da comida quanto dos que não conseguiram ter êxito na vida) e vestígios de sangue que vão manchando aos poucos o carpete do teatro.

    Leia se tiver muito, mas muito estômago. E se você quiser assustar alguém, deixe o livro tomando luz durante o dia – a capa tem um brilho verde memorável à noite.

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  • scissors
    01/07/2009Livro

    While the light lastsPerdi a conta de quantas histórias já li da Agatha Christie, apelidada carinhosamente de Rainha do Crime. Lembro que comecei a ler seus quarenta e tantos livros – ela tem oitenta ao todo, sem contar os romances que escreveu sob o nome de Mary Westmacott – graças à uma coleção que tinha sido publicada em bancas de jornais semanalmente. O engraçado de ler Agatha é que depois de um certo tempo não lembro mais quem é o assassino, o motivo, às vezes sequer da história.

    Retomei a leitura, só que agora em inglês. Não que eu tenha recomeçado a ler todos, mas quando encontro algum livro o qual não me recordo, compro para ver se realmente não passou pelos meus olhos – no final, claro, já tinha lido. :)

    “While The Light Lasts” (em português, Enquanto Houver Luz) é, na verdade, uma coletânea de  nove histórias as quais tinham sido publicadas apenas em jornais ou revistas nas décadas de 20 e 30. São contos, aliás, que foram relançados praticamente vinte anos após sua morte. Mesmo tendo uma história com o detetive belga mais vaidoso da história (The Mystery Of The Baghdad Chest), há outras em que nada remetem somente a assassinatos. São contos de triângulos amorosos (Within A Wall), trágicos reencontros amorosos (While The Light Lasts), chantagens (The Actress), caça ao tesouro (Manx Gold) e até sobrenatural (The House Of Dreams).

    O que achei interessante também nessa edição são os comentários feitos após cada uma das histórias. São relatos de quando e onde elas foram publicadas, o que levou Agatha a escrevê-las e outros fatos curiosos, tais como o desaparecimento da escritora por quase duas semanas após saber da traição do primeiro marido – o que muitos dizem não ter passado de um golpe de publicidade, apesar de médicos terem diagnosticado como amnésia e até colapso nervoso.

    Um fato, porém, me decepciona na escritora britânica: o racismo. Todo mundo tem direito de não gostar de algo ou alguém, mas acho que isso que não precisa ficar implícito – às vezes explícito – publicamente. Guarde para você, assim você não arranja briga com ninguém. Creio que o caso mais famoso foi o título “Ten Little Niggers” (traduziram suavemente para O Caso Dos Dez Negrinhos, mas sabemos muito bem que é “pretinhos”); arrancou várias críticas da imprensa na época e, logo depois, encontraram nomes alternativos como “Ten Little Indians” e “And Then There Were None” (E Não Sobrou Nenhum) – não adiantou, entretanto, adaptar para Indians se a ilha qu serviu como cenário da história se chamava Nigger Island.

    Na última história que leva o mesmo título do livro, Agatha consegue ser criativa ao descrever a cor das pessoas, o que não seria necessário já que ela indica a África no primeiro parágrafo como o local do conto:

    But the coffee-coloured driver, appealed to, responded with the cheering news that their destination was just round the next bend of the road.

    Bom, ninguém é perfeito. É melhor pensar que Agatha contribuiu e renovou a maneira de escrever romances policiais, vivas até hoje.

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