Zé Offline

Música. Cinema. Livros. Whatever.
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    03/05/2010Livro

    Kurt Vonnegut me surpreende mais uma vez, mesmo sendo seu terceiro título que leio até agora. Mother Night (não sei dizer se foi traduzido para o português) é a história de Howard W. Campbell, Jr. narrada em capítulos soltos, que vão e voltam a medida que os fatos e os personagens se reconectam para dar o entendimento final ao leitor. Atualmente em um presídio na velha Jerusalém, com a ajuda de uma máquina de escrever, Campbell consegue transcrever seus memórias antes de sua sentença.

    O primeiro capítulo tenta explicar a confusão de papéis que Howard incorpora ao longo do livro: americano de nascimento, nazista por reputação e sem-nação por inclinação. Logo após a Primeira Guerra Mundial mudou-se para a Alemanha, lugar onde edificou sua vida como escritor de peças de teatro (tornando-se fluente na língua desse país e, de certa forma, esquecendo um pouco da nativa). Nada mais do que um disfarce para a função de propagandista nazista, cuja disseminação de suas mensagens, de acordo com muitos dos personagens que reconhecem Campbell pelo seu passado criminoso, foram vitais para o fortalecimento do reinado de Hitler. Como se não bastasse, Howard também se revela um espião a favor do exército norte-americano.

    O cinismo de Howard é impressionante. A forma desdenhosa como ele trata a vida miserável dos que estão à sua volta (com exceção de sua falecida esposa, única pessoa a quem ele realmente venera), sua crença de ser o precursor ou criador de qualquer marco importante da História (suas peças de teatro, cujos roteiros foram deixados na Alemanha quando se refugiou em Nova York, se tornaram famosos no país inteiro após suas publicações) e, pricipalmente, sua notoriedade propagandista lembrada no mundo todo – mesmo que na realidade essa notoriedade se dê pela sua captura e não pelo reconhecimento como nazista – chegam a irritar um pouco.

    Talvez, entretanto, seja essa a ideia de Kurt. Irritar por pura provocação. O humor negro se mistura com o cinismo de uma maneira muito divertida, arrancando algumas boas risadas diante de certas situações inusitadas (como, por exemplo, o reencontro com sua mulher dita como morta e o breve encontro com Hitler, a pedido dele, para saudá-lo e elogia-lo por seu excelente trabalho). A guerra novamente é o cenário para sua história, mas acho que isso deve ser uma característica recorrente na maioria de seus livros, dado o fato de já ter participado de uma. Apesar de ter sido escrito em 1961, o livro parece ser tão atual quanto Hocus Pocus, publicado na década de 90. E mesmo com um final evidente, encerrado em menos de duzentas páginas, dá vontade de ler mais registros do multifacetado Howard W. Campbell, Jr.

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    05/02/2010Livro

    Na ânsia de comprar todos os livros do Chuck Palahniuk, o vendedor me sugeriu Kurt Vonnegut, cuja forma de escrever serviu de influência para Chuck (fato que concordo com o funcionário da loja em certos aspectos). É um famoso autor norte-americano e de ascedência germânica que, até sua morte em 2007, escreveu vários títulos, todos cercados de muito humor negro e ficção científica. Esse em questão, Slaughterhouse-Five (foi traduzido igual para português: Matadouro 5), é praticamente uma autobiografia do que Kurt vivenciou quando soldado e prisioneiro na Segunda Guerra Mundial.

    No primeiro capítulo, Kurt explica como pensou e decidiu em escrever essa história com um cunho totalmente antiguerra. Nada de vangloriar os vitoriosos – se é que existe algum quando o saldo é contabilizado por baixas -, apenas fatos nus e crus do cenário durante e pós-guerra. E é exatamente dessa maneira como Vonnegut descreve o que testemunhou na cidade bombardeada de Dresden, Alemanha: situação precária dos soldados (inclua fome, sede e sujeira), cenas apocalípticas depois do bombardeio, tiroteios e execuções para todos os lados. O nome da obra, aliás, é justamente o lugar onde Kurt ficou abrigado na época, dias antes da cidade ter sido totalmente devastada.

    Kurt não tem uma sequência temporal dos acontecimentos. Ele justifica essa característica ao criar um personagem cujo tempo não existe para ele: Billy Pilgrim é transportado em vários momentos de sua vida, desde a infância até a véspera de sua morte. Através dessas passagens, em que a explicação se complementa com o sequestro dele por extraterrestres (Tralfamadorianos – de onde ele tirou esse nome?), seres super desenvolvidos em relação aos humanos – esse cliché nunca será desfeito – que não entendem nossa concepção de tempo, já que eles têm o poder de passear por ele em quatro dimensões. É outra forma de Vonnegut dizer que nós deveríamos guardar somente as boas lembranças, deixando para trás os maus momentos e, assim, enterrando nosso ódio e sede de vingança – muitas vezes a causa de tantas guerras.

    Não classificaria o livro como ficção-científica só por conter alienígenas na história. Para mim, o autor deixou bem claro ao final do  livro o motivo pelo qual Billy insiste tanto em ter sido abduzido e, principalmente, suas andanças pelo tempo. O humor ácido que tantos falam ser uma característica presente em suas obras passou despercebido por mim. Fora um ou outro trecho cômico – o que não considero humor negro -, o autor consegue ser levemente engraçado. Por ser um livro que retrata a guerra,  não consegui encontrar o sarcasmo afiado que também tanto li por aí. Aliás, tive até dó de Billy: um personagem catatônico que é humilhado sem se dar conta de que está fazendo papel de palhaço, sendo que seus amigos não têm a devida paciência ou, pior, simplesmente não suportam vê-lo na frente. Será que Kurt se sentiu assim quando esteve na guerra? Talvez tenha sido uma dura realidade disfarçada em ficção.

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