
Fui assistir a “Pina”, mais por curiosidade do que por interesse, mas já podia ter antecipado minha total indiferença com o documentário. Prestei muito mais atenção na trilha sonora do que nas danças, que soube mesclar uma verdadeira coletânea de world music, incluindo aí nossa tão batida MPB – Caetano Veloso, no caso do filme. Não costumo ser tão eclético assim, mas digamos que, por mais que as coreografias não tenham feito sentido algum para mim, as músicas selecionadas se encaixaram perfeitamente (e estranhamente) nelas.
Uma música em particular prendeu toda a minha concentração, tanto que mal consigo lembrar do casal dançarino em questão (os movimentos se resumiam ao homem segurando a mulher para que ela não caísse no chão, fruto de um tombo proposital). A voz que aos poucos se destacava dos acordes iniciais do violoncelo me era muito familiar e, logo após o filme, me apressei para descobrir a vocalista misteriosa: Lisa Papineau, de quem tanto venero nos discos do Big Sir.
A canção é The Here And After, do compositor e trompetista japonês Jun Miyake - cuja admiração por Pina Bausch, pelo que notei em minhas andanças pela internet é bastante presente. Ela faz parte de seu último álbum “Stolen From Strangers”, em que a fusão de ritmos emprestados de vários cantos do mundo, assim como na trilha de Pina, demarca o estilo musical do repertório. Além de Lisa, outros cantores contribuem para a diversidade de línguas nas faixas, como os franceses Arthur Higelin e Stéphane Sanseverino e o americano Arto Lindsay – que canta um português aceitavelmente límpido. Pelo próprio talento de Jun recair sobre trompete e piano, é natural que toda essa convergência sonora tenha uma veia pulsante no jazz, além, claro, de dar a ideia de ser a trilha sonora de um filme fantasioso.