Dando continuidade à retrospectiva do ano, na segunda parte há um pouco mais de sons mesclados: música eletrônica, folk e demais experimentalismos, porém a sequência até que criou uma harmonia simpática e democrática.
Mais e mais mulheres ganham espaço aqui no blog, sejam elas do rock, do experimentalismo ou de batidinhas eletrônicas. O folk também tem sua vez – pode parecer estranho, mas eu tenho um lado de águas mais tranquilas -, e é com duas cantoras que eu dedico esse post.
Descobri Julia Stone com atraso, só depois de um ano do seu primeiro álbum solo. Mais uma vez ela me pegou de surpresa com o segundo disco “By The Horns”, lançado há pouco tempo. O primeiro single Let’s Forget All The Things That We Say não me animou muito com seu piano pausado (apesar do vídeo ser uma graça, todo em preto em branco) e, com o tempo, fui me acostumando com as outras faixas desse EP, que entraram como bônus na edição de luxo. Mas ela, de novo, conseguiu me pegar de jeito com uma única música, o segundo single It’s All Okay: amargura no piano incessante, desamparo total nas letras; o final é mais triste do que em Winter On The Weekend, agora a desilusão recai sobre o homem cujo futuro será com outra mulher. Apesar de muito drama, as outras canções se mantém mais equilibradas, porém com uma dose certeira de melancolia. Tudo depende, claro, dos arranjos e dos instrumentos, contudo é perceptível o violão e o piano como carros-chefe.
Já que falei da Julia, não tem como não mencionar seu irmão Angus Stone. Pelo visto, ele também não quis ficar para trás e lançou um trabalho solo, “Bird On The Buffalo”, mas não me surpreendeu em nada, assim como seu projeto Lady Of the Sunshine. Ponto para a irmã.
Marissa Nadler foi citada pouquíssimas vezes aqui no blog, muito de passagem para falar a verdade (quando eu queria compará-la com outras cantoras do mesmo estilo). O folk de Nadler, apesar de ser muito mais simples, carrega toda a potência na voz ecoante dela. Seu lirismo em todas as canções dão um ar bucólico e distante, ao mesmo tempo em que deixa as melodias dramáticas e até obscuras – já li por aí derivações musicais como dark folk/neofolk e dream folk, mas prefiro desviar meu caminho dessas classificações. Tendo acompanhado sua carreira quase desde o início, em 2004, é legal presenciar a independência da cantora no lançamento de seus álbuns. Seu penúltimo trabalho autointitulado, foi concluído e divulgado ano passado graças ao crowdfunding no Kickstarter. Para 2012, Marissa veio com “The Sister”, seguindo a mesma linha artística de seus discos anteriores. Veja a seguir o vídeo de In Your Lair, Bear, produzido por ela mesma.
Os irmãos Angus e Julia Stone formam um belo casal folk, mesmo que suas músicas nunca tenham me atraído por completo – salvo uma única canção a qual ouvi inúmeras vezes. A discrição – ou talvez a falta de divulgação mesmo – fez com que eu me deparasse com o primeiro trabalho solo de Julia Stone somente agora, praticamente um ano após o seu lançamento.
“The Memory Machine” carrega uma névoa nefasta estampada já na capa do disco: a pintura de uma mulher morta estirada ao chão certamente não traz boas lembranças. Se dermos uma rápida olhada por alguns títulos, a impressão é de que a tristeza também foi carimbada em suas letras (fato muito reforçado nas ilustrações criadas para algumas dessas faixas): Where Does The Love Go consegue borbulhar muita desesperança em encontrar o amor apenas com um ukulelê e a voz fraquejada de Julia. A aranha gigante que ameaça o pôster de Catastrophe, entretanto, não aterroriza enquanto Stone canta acompanhada de um trompete tranquilizador (“and we wait for something beautiful”).
É provavel que a maior diferença entre Julia e Angus seja justamente o drama que ela carrega em suas melodias – um passo a mais do que o humilde folk contemplado quando estão cantando juntos. A voz tão delicada e quase trêmula em algumas músicas, como por exemplo em Maybe (cujo vídeo você vê logo ao final) e My Baby, torna-se muto mais acentuada quando paramos para prestar atenção nas letras: amor não correspondido, máquina de memórias à prova de saudades, dúvidas do que está errado quando tudo está perfeito – What’s Wrong With Me? – ou quando tudo está perdido – Lights Inside This Dream.
A certeza de tanta desilusão e descrença na vida vem com a faixa mais dramática de todas – e, para variar, a minha predileta -, a única que abriu exceção ao violão e ao ukulelê, se rendendo inteiramente ao piano: Winter On The Weekend. A metáfora do cãozinho que dispara amedrontado em direção ao seu dono sugere muito mais do que a proteção implorada no refrão; o aviso real vem atrasado na penúltima estrofre, com muita amargura: “And all this time I needed you / And all this time I wanted you / You can’t hear me now / Can’t hear me now / Like you do”.
Não sei explicar o porquê de tantos sentimentos machucados interpretados em tão pouco tempo, em apenas dez músicas. A resposta talvez esteja em algo não muito complicado de entender: grandes músicas são escritas com a dor latejante do coração refletindo na ponta dos dedos – por mais dramático que pareça.