Zé Offline
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26/02/2010Livro
Depois de ler Hocus Pocus, posso afirmar agora que Kurt Vonnegut possui um nível mais que satisfatório de sarcasmo e humor negro. Era exatamente o que estava esperando, visto que não encontrei essas qualificações em Slaughterhouse-Five.Mesmo sendo um dos últimos livros publicados antes de sua morte, ainda na década de 90, o passado predomina a vida de Eugene Debs Hartke (acho estranho associar Eugene ao sexo masculino, mas enfim, não vem ao caso) em uma série de memórias escritas durante seu confinamento na biblioteca de uma antiga faculdade para pessoas especiais – não sei como traduzir learning-disabled de forma politicamente correta – que, nos tempos presentes, funciona como um presídio.
O ano em questão é 2001, 61 anos de experiência contados de uma maneira aparentemente inocente, sem perceber que na verdade – pelo menos é a impressão que tive desde as primeiras páginas – sua vida até aqui se caracteriza por uma coletânea dos próprios fiascos e infortúnios que levaram a vida de muitos de seus amigos, colegas de trabalho ou apenas conhecidos. Talvez a única sorte que Eugene tenha tido em sua vida foi não tê-la perdido.
É impossível conter as risadas, aquelas que persistem em puxar o canto da sua boca enquanto você lê silenciosamente no ônibus ou no metrô, em cada trecho narrado por Hartke. Trechos de quando ele se casou com uma mulher louca e renegou a educação dos filhos por receio de que ficassem tão desequilibrados quanto a mãe; de como ele acidentalmente participou da guerra no Vietnã em troca do futuro em uma universidade renomada; de quando ele começou a lecionar na Faculdade Tarkington (família cujos genes carregam a dislexia como herança); de como ele foi acusado e preso pela fuga dos presos (nem ele sabe direito como isso aconteceu, ou simplesmente não se conforma); de como seus colegas soldados morreram na guerra e como um de seus colegas professores morreu crucificado (sim, por mais trágico que seja, é uma das mortes mais hilárias).
Eugene também serve como pano de fundo para muitas das críticas de Vonnegut, todas muito bem afiadas, à sociedade e seu falso moralismo, ao choque de culturas (principalmente entre os asiáticos), à discriminação entre as classes sociais, ao jogo de interesses na economia mundial e, claro, à guerra. São várias as reflexões, mas para que bancar o crítico antropólogo se o intuito é se divertir?
E eu acho que descobri qual é o número de pessoas que Eugene matou durante a guerra, o mesmo número de mulheres com quem ele já fez sexo. Caso você não tenha sido tão inteligente como eu tido o mesmo êxito que eu, Kurt deixa um recadinho de consolo:
Tags: eugene debs hartke, faculdade tarkington, guerra, hocus pocus, kurt vonnegut, slaughterhouse five, vietnãJust because some of us can read and write and do a little math, that doesn’t mean we deserve to conquer the Universe.
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05/02/2010Livro
Na ânsia de comprar todos os livros do Chuck Palahniuk, o vendedor me sugeriu Kurt Vonnegut, cuja forma de escrever serviu de influência para Chuck (fato que concordo com o funcionário da loja em certos aspectos). É um famoso autor norte-americano e de ascedência germânica que, até sua morte em 2007, escreveu vários títulos, todos cercados de muito humor negro e ficção científica. Esse em questão, Slaughterhouse-Five (foi traduzido igual para português: Matadouro 5), é praticamente uma autobiografia do que Kurt vivenciou quando soldado e prisioneiro na Segunda Guerra Mundial.No primeiro capítulo, Kurt explica como pensou e decidiu em escrever essa história com um cunho totalmente antiguerra. Nada de vangloriar os vitoriosos – se é que existe algum quando o saldo é contabilizado por baixas -, apenas fatos nus e crus do cenário durante e pós-guerra. E é exatamente dessa maneira como Vonnegut descreve o que testemunhou na cidade bombardeada de Dresden, Alemanha: situação precária dos soldados (inclua fome, sede e sujeira), cenas apocalípticas depois do bombardeio, tiroteios e execuções para todos os lados. O nome da obra, aliás, é justamente o lugar onde Kurt ficou abrigado na época, dias antes da cidade ter sido totalmente devastada.
Kurt não tem uma sequência temporal dos acontecimentos. Ele justifica essa característica ao criar um personagem cujo tempo não existe para ele: Billy Pilgrim é transportado em vários momentos de sua vida, desde a infância até a véspera de sua morte. Através dessas passagens, em que a explicação se complementa com o sequestro dele por extraterrestres (Tralfamadorianos – de onde ele tirou esse nome?), seres super desenvolvidos em relação aos humanos – esse cliché nunca será desfeito – que não entendem nossa concepção de tempo, já que eles têm o poder de passear por ele em quatro dimensões. É outra forma de Vonnegut dizer que nós deveríamos guardar somente as boas lembranças, deixando para trás os maus momentos e, assim, enterrando nosso ódio e sede de vingança – muitas vezes a causa de tantas guerras.
Não classificaria o livro como ficção-científica só por conter alienígenas na história. Para mim, o autor deixou bem claro ao final do livro o motivo pelo qual Billy insiste tanto em ter sido abduzido e, principalmente, suas andanças pelo tempo. O humor ácido que tantos falam ser uma característica presente em suas obras passou despercebido por mim. Fora um ou outro trecho cômico – o que não considero humor negro -, o autor consegue ser levemente engraçado. Por ser um livro que retrata a guerra, não consegui encontrar o sarcasmo afiado que também tanto li por aí. Aliás, tive até dó de Billy: um personagem catatônico que é humilhado sem se dar conta de que está fazendo papel de palhaço, sendo que seus amigos não têm a devida paciência ou, pior, simplesmente não suportam vê-lo na frente. Será que Kurt se sentiu assim quando esteve na guerra? Talvez tenha sido uma dura realidade disfarçada em ficção.
Tags: alemanha, alienígenas, dresden, extraterrestres, ficção científica, guerra, humor negro, kurt vonnegut, matadouro 5, segunda guerra mundial, slaughterhouse five, tralfamadorianos -


































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