Zé Offline

Música. Cinema. Livros. Whatever.
  • Diary

    0
    scissors
    12/02/2010Livro

    Acho que nunca vou parar de me surpreender com as sandices de Chuck Palahniuk. Diary (em português, Diário) é uma de suas histórias de terror (as outras são Lullaby e Haunted), terror esse que não surge repentinamente. Explico.

    Antes de tudo, devo ressaltar que a marginalidade de seus personagens nas publicações anteriores ainda permanece, pelo menos nesse livro. A protagonista é Misty Wilmot que desde criança, quando morava com a mãe em um trailer, desejava ser reconhecida no mundo das artes. Contudo, teve seu sonho destruído pelo marido Peter, atualmente em coma devido a uma tentativa de suicídio.

    A história é contada em forma de um diário, justamente para retratar a trajetória fracassada de Peter quando ingressou na faculdade de artes e conheceu Misty – para, quem sabe um dia, ele ter a chance de ler o que aconteceu durante seu coma. Era para Misty ser uma pintora renomada no mundo inteiro, como dito antes, porém o que lhe restou foi trabalhar de empregada no único hotel de Waytansea Island, região contaminada pelos turistas nas altas temporadas. O dinheiro se esvaiu na mão do marido que, mesmo vegetativo, recebe processos e ameaças de clientes cujos cômodos de suas casas de veraneio simplesmente sumiram: uma cozinha, um closet, um quarto, e assim por diante.

    Até a metade das páginas, não consegui sentir um fio de cabelo arrepiado ou aquela angústia seguida do desespero. Onde está o terror? Só lia mais e mais páginas com sacarsmo transbordando a superfície do humor negro – um prato cheio para ácidas risadas. O suspense se torna mais apreensivo sem você perceber, desafiando sua concentração em meio a tantos detalhes que Chuck faz questão de descrever em cada cena, cada situação, cada quadro rabiscado por Misty. As coleções de porcelana que Grace, sogra de Misty, ensina para sua neta Tabitha (chamada o tempo todo de Tabbi), os tipos de pincéis, canetas e as tonalidades de cores que Misty compra para começar a pintar, as expressões faciais sob um vocabulário mais científico (levator labii superioris), o carpete, as cortinas e os lustres do salão do hotel, as lições de grafologia, as doenças que inspiraram o dom artístico de vários pintores famosos.

    Para quem não está acostumado com a técnica de escrever de Palahniuk, talvez se irrite um pouco com tantos rodeios, todos eles propositais para que você se infiltre no suspense e não saia dele tão cedo. Aparentemente nada acontece na ilha, contudo são as pequenas revelações que fazem as surpresas mais impactantes da história entre tantas ações cotidianas: o trabalho de Misty, as leituras que Grace faz em seu misterioso diário, as investigações do detetive sobre os atos de vandalismo nas casas de veraneio, os encontros de Misty com seu único amigo Angel Delaporte (um dos clientes prejudicados pelos cômodos desaparecidos).

    O final é surpreendente, para não dizer bizarro. Fico em cima do muro ao dizer se já esperava tal desfecho ou não – ainda mais vindo da cabeça louca de Palahniuk. Os últimos acontecimentos são narrados rapidamente, os detalhes agora são poupados, deixando as indagações do leitor à deriva. Eu mesmo precisei voltar algumas páginas para ver se eu tinha entendido o que estava lendo, se estava acompanhando – e ao mesmo tempo acreditando – a sequência dos fatos. Conspiração, insanidade, alucinações, pessoas ressuscitadas (?), assassinato, encarnação… no final você entende porque é um conto de terror.

    Tags: , , , , , , , , ,
SEO Powered by Platinum SEO from Techblissonline
SEO Powered by Platinum SEO from Techblissonline